Cláudio Monteiro
O impacto provocado pela epidemia no espaço de poucos anos (no Estado de São Paulo, de 1 caso em 1981 para 137.183 casos em 2007, segundo o Programa Estadual de DST/AIDS), associado às circunstâncias inter-individuais nas quais a transmissão ocorre, faz com que, cotidianamente, diversas áreas de produção de conhecimento e os responsáveis – destacando-se a co-responsabilidade social – pela execução de ações de enfrentamento à epidemia veêm-se premidos a procurar soluções exeqüíveis muitas vezes a curto prazo, às mais inusitadas situações provocadas pelo HIV.
Neste curto espaço de tempo, observamos o advento e desenvolvimento de três ondas epidêmicas predominantes e muito precisas: do início dos anos 80 a meados dos anos 90, a onda entre os Homens que Fazem Sexo com Homens; de meados dos anos 90 ao início deste século, a onda entre os Usuários de Drogas Injetáveis; e apartir dos anos 90, em constante e discreta ascensão até o presente, a transmissão originada em relações heterossexuais. Soma-se a isso, o processo de interiorização (dados do Programa Nacional de DST/AIDS apontam que 81% dos municípios brasileiros já haviam notificado pelo menos um caso autóctone de AIDS, até 2006) e de pauperização.
A configuração processual apresentada pela epidemia de HIV, tanto a nível pandêmico, quanto a nível epidêmico nacional levou – e leva incessantemente -a uma revisão de valores frente aos mais diferentes aspectos da doença.
Da virologia à teologia, da farmacologia aos direitos humanos, ou ainda da psicologia clínica às ciências políticas, o binômio HIV/AIDS força-nos a um constante adaptar-se às novas facetas de suas manifestações, clínicas, epidêmicas e sociais.
Como trabalhar o enfrentamento a epidemia em seu âmago atual, qual seja, a necessidade de ações de prevenção intra-conjugais, em situações, supostamente estáveis? Como garantir que todas as vítimas de abuso ou violência sexual tenham acesso à quimioprofilaxia, quando segundo estimativas dos órgãos de segurança, apenas 10 % dos casos são denunciados? Como desenvolver ações de prevenção secundária que promovam a qualidade de vida dos portadores de HIV? Como prevenir a infecção em situações de extrema vulnerabilidade, como entre pessoas em situação de rua, numa cidade como São Paulo, onde esta população ultrapassa o número de 15.000 pessoas? Como intervir na Cracolândia (em que pese o fato deste bairro de São Paulo oficialmente não existir) onde crianças de ambos os sexos, oferecem seus serviços sexuais? Como promover o debate sobre prevenção e acolhimento em espaços religiosos, sem ferir os mais diversos posicionamentos dogmáticos? Como garantir que a atual política de financiamento das ações em HIV/AIDS seja de fato exercida?
Um grande amigo meu recentemente chamou minha atenção para este aspecto: num espaço de 25, 30 anos, o binômio HIV/AIDS revolucionou o mundo (num sentido dialético homem/homem/natureza), transpassando transversalmente todas as formas de inter-relações possíveis. Paradoxalmente, este processo traz consigo também conseqüências sociais bastante positivas, como, o que poderíamos chamar de “focos epidêmicos de solidariedade”.
Particularmente no meu caso, que tenho tido a oportunidade de acompanhar o ainda crescente fenômeno do HIV/AIDS, costumo também dizer que a AIDS, tem a capacidade de fazer que todos nós (independentemente de situação sorológica, sejamos profissionais, ativistas, solidarizantes, ou seja qual for o vínculo que venhamos a ter com a causa) venhamos a nos tornar pessoas melhores. Antes de problemas, temos desafios.
Cláudio Monteiro é sociólogo do Centro de Referência e Treinamento em DST/AIDS de São Paulo.
Apoios



