Consultando com o inimigo. Beto Volpe é ativista e fundador da ONG Hipupiara, de São Vicente-SP.

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Por Beto Volpe

Que atitude mais repugnante a de uma ortopedista que trabalha em um hospital público do Distrito Federal, que como solução para o problema de segurança no condomínio onde vive colocou seringas nos muros de sua residência com o aviso: “Muro com sangue HIV positivo. Não pule!!!”

Essa criatura vivente, à qual me recuso a chamar de humana, que jurou por Hipócrates um monte de coisas lindas sobre amor ao próximo, cuidado e saúde, não se incomoda em ultrajar a dignidade das pessoas vivendo com HIV, uma vez que sua atitude reforça o falso conceito de que se contrai o vírus HIV por contatos sociais como, no caso, encostar em um muro.

Lembro de uma ação de discriminação que ganhamos através do escritório jurídico do Grupo Hipupiara, ONG da qual orgulhosamente sou fundador e tive o prazer de dirigir, onde um vizinho ridículo proibiu uma jovem mãe de família, HIV+, de pisar na calçada em frente à sua casa sob pena de tomar banhos de baldes estrategicamente posicionados para tal. E o argumento dele era o de que ele tinha filhos a proteger.

Além disso, ela comete uma série de barbaridades técnicas, éticas e outras que afrontam à própria classe médica. Ou deveriam. Como se vangloriar de, por ser médica (sic), ter subtraído do hospital onde trabalha sangue infectado pelo HIV de clientes do SUS (Sistema Único de Saúde). Mais, ainda que a transmissão do HIV seja impossível naquelas condições, ela expôs os vizinhos condôminos e seus visitantes a uma série de patologias bacterianas e mesmo virais. Aí vieram as reações: a síndica deu dois dias para retirar `aquilo`, enquanto a polícia e a vigilância sanitária disseram não poder fazer nada por se tratar de propriedade particular. Oras, e o descarte inadequado de material infecto contagioso?

A Secretaria de Saúde irá investigar o desvio de seringas do Hospital Regional do Paranoá e o CRM-DF (Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal) condenou a atitude da colega (sic em nome de meus queridos amigos médicos) apesar da não notificação até o momento. A propósito, esse comportamento reforça um estigma sobre a disciplina entre os demais médicos, que ortopedistas são os açougueiros da medicina. Com todo o respeito a Gilberto, meu amigo açougueiro e a todos os bons profissionais da referida área médica.

Doutora, a senhora sabe que fez uma grande bobagem e por isso não queria se identificar. Quem sabe a partir dessa experiência de viver escondida, com medo de ser excluída ou constrangida publicamente, lhe faça rever seus conceitos, lhe aproxime das pessoas vivendo com HIV. Verá que estamos tendo sérios problemas na sua área, a ortopedia.

A senhora se surpreenderá, caso tenha esquecido dessa aula e não lido nada sobre AIDS nos últimos 20 anos, ao ver que não se transmite HIV dessa forma. Assim só se transmite ódio, medo, repulsa, fobia. A mesma fobia que a senhora sente dos ladrões que lhe roubaram o secador de cabelos e a televisão de plasma. Pois eles são inocentes. Se ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão eles têm a eternidade, pois a senhora usurpou, além de um hospital público, nossa honra e sua dignidade.

Se a senhora está cansada de ser roubada, nós estamos cansados de falsos profissionais. E a doutora é uma fratura exposta na medicina ortopédica, de quem tanto necessitamos atualmente.

Com a palavra, todo mundo! Especialmente as autoridades, pois isso é caso de POLÍCIA.

Beto Volpe é ativista e fundador da ONG Hipupiara, de São Vicente-SP.


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