Eliana Gutierrez*
24/01/2016 – A epidemia de aids na cidade de São Paulo está diminuindo como um todo, mas cresce entre homens jovens a partir dos 15 anos de idade. Nossa epidemia é concentrada em homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo, pessoas que usam drogas e privadas de liberdade, as chamadas populações-chave. Para falarmos sobre os desafios no combate ao HIV/aids temos de nos situar histórica e socialmente.
Em 2013, realizamos a 1ª PCAP (Pesquisa de Conhecimento, Atitudes e Práticas) municipal do Brasil. Ela revelou que, na cidade, 52% dos jovens iniciaram a vida sexual antes dos 15 anos, praticamente todo mundo sabe que o preservativo é o melhor instrumento para prevenir a infecção por HIV mas o acesso ao mesmo é baixo; a cobertura de testagem para HIV é baixa, assim como o conhecimento sobre a PEP (profilaxia pós-exposição).
A prevenção primária não está esgotada, ainda há falta de acesso ao preservativo masculino. Implantamos uma audaciosa estratégia de acesso a esse insumo baseada na redução de barreiras: dispensadores Jumbo, para 15 mil preservativos, colocados na rua, em áreas externas das unidades de Saúde. Em 2015, passamos a distribuir as camisinhas em locais por onde circulam até 6 milhões de pessoas todos os dias: os 26 terminais municipais de ônibus urbanos. Resultado? Oito milhões de preservativos distribuídos só nos terminais urbanos, em dezembro.
Nossa rede necessitava de reformas, médicos infectologistas e demais profissionais de saúde e material médico hospitalar. Desde 2013, já reformamos 18 unidades da RME (Rede Municipal Especializada) e mais quatro serão reformadas em 2016, compramos material médico hospitalar e desde 2014 temos médicos infectologistas para a RME, contratados após um concurso público que era aguardado há muito tempo na Secretaria Municipal de Saúde .
Desde 2013, definimos, a partir de demandas, a Política Municipal de Saúde Integral para População LGBT, com acesso inclusive a hormonioterapia, hoje implantada em nove UBS (Unidades Básicas de Saúde) da região central, de forte concentração LGBT.
No DBA (Programa De Braços Abertos), pioneiro no Brasil e no mundo, contribuímos com testagem, distribuição de insumos de prevenção e matriciamento dos consultórios na rua para tratamento das pessoas vivendo com HIV/aids. A partir desta experiência, implantamos o programa Caminhos da Prevenção na região central da cidade, por meio do qual beneficiários do DBA distribuem, de triciclos, camisinhas para estabelecimentos de entretenimento adulto. Atualmente, distribuímos 33 mil preservativos todas as semanas por este projeto e os beneficiários foram capacitados para exercerem atividades autônomas e saírem do DBA.
Para elevar a cobertura de testagem para HIV, capacitamos cerca de 1.500 profissionais de saúde para realizar teste rápido para HIV nas UBS e AMA (Assistência Médica Ambulatorial) e nos articulamos com a Secretaria dos Direitos Humanos para ofertar teste de triagem para HIV em ambiente comunitário em horários alternativos. Em conjunto com o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), lançamos o Projeto Viva Melhor Sabendo Jovem, para elevar a cobertura de teste de triagem entre jovens. Mantivemos nossa participação no Projeto Quero Fazer, com a mesma proposta de testagem em ambiente comunitário.
Em 2015, elaboramos e disponibilizamos gratuitamente o aplicativo TánaMão, primeiro do gênero no Brasil, que informa o risco de HIV e de IST (infecções sexualmente transmissíveis) de acordo com a prática sexual e onde obter camisinhas, PEP, testes e assistência pública na cidade.
Desde 2013, orientamos que a terapia antirretroviral seja ofertada a todas as PVHIV (pessoas vivendo com com HIV), independentemente da contagem de CD4. Em 2015, construímos a Cascata de HIV da cidade de São Paulo: entre as PVHIV tratadas, 77% têm carga viral indetectável e 87% , abaixo de 1000 cópias, ou seja, não transmitem a infecção. Este resultado é superior aos de muitos países, inclusive desenvolvidos.
Nossos principais desafios são:
— Reduzir o estigma e a discriminação que sofrem as PVHIV e as populações-chave para esta epidemia;
— Ampliar o acesso às prevenção primária, PEP e testagem;
— Intensificar a vinculação e a retenção de PVHIV na rede de assistência, elevar a adesão ao TAR, e reduzir a taxa de mortalidade por aids;
— Reduzir a transmissão vertical do HIV, melhorando a assistência às gestantes, parturientes e puérperas.
— O diálogo produtivo com a sociedade civil organizada é requisito essencial para enfrentarmos, juntos, todos estes desafios e avançar mais no enfrentamento da epidemia. Esta é a história que a luta contra a aids escreveu e ensinou para toda a nossa sociedade.
Feliz 462º aniversário, São Paulo!
* Eliana Gutierrez é coordanadora do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo.
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