Congresso Brasileiro de Aids e DST, o congresso que não foi só médico

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Henrique Contreiras*

Há anos que frequento congressos médicos – em que nós, os médicos, nos reunimos para discutir a saúde deles, os pacientes. Entrar para o campo do HIV significou uma nova experiência. No Congresso Brasileiro de Aids e DST, que reuniu mais de duas mil pessoas essa semana em São Paulo, vozes diferentes tiveram espaço, inclusive das pessoas cuja saúde estava sendo discutida.

Palavras de especialistas têm o peso da verdade nos congressos exclusivamente médicos. No Brasileiro de Aids, havia sempre o risco de um diálogo com os maiores interessados.

A representante do Ministério da Saúde disse que vacina contra HPV para meninos não está em cogitação. O ativista gay replicou que eles precisam da vacina pois sofrem com câncer de ânus. O pesquisador mostrou os resultados de como as pessoas com HIV fazem sexo. O ativista com HIV disse como ele próprio faz sexo.

A polifonia vai além da sociedade civil. Como a aids é um campo sujeito a forte regulação e ação estatal, o governo está sempre presente, estando de algum modo acessível em vez de isolado nos gabinetes. E o protagonismo dos serviços públicos de aids em relação à prática privada – classicamente mais centrada no médico – contribui para que as diferentes profissões da saúde estejam melhor representadas.

Em contrapartida, os congressos médicos geralmente se baseiam na premissa da primazia da corporação em relação à saúde da população – e não tem sido raro se deparar com manifestações defensivas em relação a qualquer movimento que ameace esse status quo. Além de serem bastante heteronormativos.

A diversidade de vozes tira os profissionais e gestores da bolha e empodera a sociedade civil. Assim, ciência, medicina e políticas públicas – três fenômenos sociais, e não somente técnicos! – podem avançar de forma mais justa. 

A impressão de diversidade vem da comparação com os congressos médicos, e este texto é mais uma crítica à forma como se dão as discussões em outros setores da saúde do que um elogio em particular a esse congresso. Sei que pode ser melhor, de acordo com minha experiência de cobertura da gigantesca Conferência Internacional de Aids, ano passado na Austrália. A participação da sociedade civil lá foi muito mais intensa. Isso requer, claro, apoio financeiro e maior abertura de espaços. A multiprofissionalidade é outro aspecto que pode melhorar.

Cabe ainda sugerir que um congresso desses inclua discussões sobre sexualidade e gênero. Atitudes preconceituosas em relação à sexualidade não são automaticamente revertidas quando alguém começa a trabalhar com DST e, infelizmente, ainda atravessam as teorias e práticas no campo. O pessoal das Ciências Sociais e Saúde pode ajudar. Fica a dica para o próximo, no meu Rio de Janeiro.

Parabéns a todos os participantes e até a próxima.

* Henrique Contreiras é médico sanitarista e colaborador da Agência de Notícias da Aids.

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