CONFERÊNCIA EM TORONTO: AS CONSIDERAÇÕES E IMPRESSÕES DE UM ATIVISTA QUE VIVE COM HIV/AIDS – Américo Nunes é presidente do Fórum de ONG/Aids do Estad

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Américo Nunes

A sociedade civil organizada existe a partir das demandas que a população tem em relação à saúde e pressionam quando os governos e empresas deixam de cumprir o seu papel e, principalmente, quando ferem os direitos humanos, em especial os preços e lucros abusivos dos laboratórios.

Nem sempre os processos de negociações são tranqüilos e menos conflituosos. Para isto existe o ativismo em todo o mundo que está atento para denunciar, cobrar ações, fiscalizar atuações e pautar diretamente esses assuntos. O movimento de Aids se expressa globalmente de forma democrática com a intenção de exercer a cidadania e atingir seus objetivos. Assim, demos visibilidade às nossas reivindicações em Toronto.

– A África foi destaque nessa conferência, desde as apresentações de trabalhos das ONG, e por parte de governo, até as ações de assistência e prevenção – trabalhos que nas entrelinhas solicitam maior intensificação nos aspectos de recursos humanos, financeiros e, principalmente, pelos direitos humanos.

– Sobre os ARV (anti-retrovirais), um dos pontos relevantes foi a pesquisa para dosagem em crianças com menos de 9 kgs, por conta da toxicidade e metabolismo. Este estudo deve considerar um fator importante que é a desnutrição, além da Aids, especificamente para crianças da África. Alguns ARV estão sendo analisados com novas composições de sabores e dosagem única, segundo estudo apresentado pela indústria farmacêutica RANBAXY.

– Observei que somente um stand trouxe a temática Lipodistrofia e a única publicação foi a do Programa Municipal de São Paulo. Foi notório um número muito grande de pessoas nesta conferência, acometidas com quadro avançado de lipodistrofia. Lutar pela vida ou pela morte civil: este é o estigma da Aids hoje no mundo, porém, não houve mesas expositivas a respeito.

– Em relação aos estudos de efeitos colaterais ou adversos dos ARV, ainda que se tenham apresentado algumas pesquisas, é necessário dar maior visibilidade, considerando fatores importantes para a adesão dos medicamentos.

– A conferência reservou um amplo salão muito bem decorado e confortável a meia luz, com sofás, serviços de massagem, refeições diárias e, principalmente, assistência médica. Tudo isso com voluntários extremamente atenciosos para propiciar às PVHA (Pessoas Vivendo com HIV/Aids) uma melhor participação com o total dos cuidados necessários; não se trata de privilégios, mas, sim, de uma atenção diferenciada.

– A sociedade civil teve seu momento para apresentar na plenária suas demandas e cobrar respostas dos governos. Foi um tipo de sofá da Hebe, onde os questionamentos da plenária foram mais interessantes que os dos convidados. Contudo, das questões apontadas, nada difere do movimento brasileiro – já passamos por esse processo em nossos eventos deliberativos. O fato de o movimento brasileiro estar à frente, não nos garante uma sustentabilidade das ações, é preciso buscar estratégias para que, na próxima Conferência (México), o Brasil esteja em destaque e principalmente o movimento, melhor articulado, planejado e unido. Fomos poucos por muitos nesta Conferência.

– Após 25 anos, existe a fragilidade global do ativista e este é o momento principal das PVHA – não haverá eficácia e impacto se as ações continuarem isoladas. Recrutar jovens para ações reativas do ativismo pode ser uma das ferramentas para o movimento. Mas é necessário infra-estrutura para melhores respostas, ou seja, não e só no Brasil que há o quadro reduzido de ativistas, porém, não podemos nos conformar com essa situação.

– Não basta Bill Clinton reconhecer que o Brasil é exemplo em referência no combate à Aids, queremos ouvir dos Estados Unidos o fim do ABC.

– É necessário uma política de monitoramento das Conferências, que esta não seja apenas mais uma. Em termos de pesquisa, qual o “Boom” desta Conferência?

– As lições aprendidas entre os corredores e saídas de salas foram interessantes, possibilitaram a troca de experiências inclusive na Vila Global (Global Village) onde a sociedade civil teve espaço aberto.

– A segurança da Conferência bloqueou a única faixa Brasileira trazida pela AFXB, tornando impossível a sua exposição durante a cerimônia de abertura. Onde está a democracia e o direito de expressão? Lamentável.

Américo Nunes é presidente do Fórum de ONG/Aids do Estado de S.Paulo e do Instituto Vida Nova

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