Foi mais uma Conferência Internacional de Aids. Pessoas de todo o mundo andando de um lado pro outro, vozes, idiomas e sotaques formando uma babel sob o signo do laço vermelho. Microbicidas e vacinas estiveram em destaque, assim como adolescentes, crianças e mulheres. Já se notam ações sobre co-infecções, sobretudo tuberculose e Aids. Ampliam-se os debates sobre comunicação e sobre religião, se falou mais em novos tratamentos e, sobretudo, se deu destaque a situação da África e da Ásia. Da cerimônia de abertura já se notava este tom, quando escolheram uma mulher jovem da Indonésia para dar o recado em nome das pessoas que vivem com Aids.
A América Latina e o Caribe, segunda região do mundo em número de casos de Aids, ficou esquecida na maioria do tempo. No café Latino – ponto de encontro dos de língua espanhola –, o assunto era o mesmo: a desilusão por não serem lembrados e a necessidade de unir forças e ampliar compromissos para chamar a atenção do mundo para a realidade da região, até a próxima conferência, na cidade do México, em 2008. Enquanto isso, ainda se morre por falta de medicamentos na América Central, se sente a discriminação com homossexuais e profissionais do sexo no Caribe e em países andinos. Não se garante testagem e exames em diversas partes da América do Sul e ainda se despedem e se discriminam pessoas por serem portadores do HIV do México para baixo. No Brasil, considerado pela opinião pública internacional como um caso resolvido, se vive a dificuldade de garantir remédios para as mais de 250 mil pessoas que dependem deles para viver. O custo do medicamento já supera a marca de um bilhão de reais por ano.
Nosso país é visto como modelar em várias ações, principalmente quando confrontado com a realidade dos países do terceiro mundo, mas busca na criatividade, no entusiasmo e na militância a elaboração de respostas consistentes e de repercussão maior. Neste sentido, as mulheres da delegação brasileira foram destaque em Toronto. A diretora do Programa Nacional, Mariângela Simão, foi importante pólo para a discussão contra a discriminação aos soropositivos e da necessidade de se integrar prevenção e assistência. Cristina Pimenta (ABIA) teve a fala mais política e de impacto da mesa de prevenção, chamando a atenção para paradigmas e estratégias, quando os outros se deteram em questões científicas ou localizadas. Gabriela Leite, do Da Vida, liderou as prostitutas de diversas partes do mundo em manifestações, falas de protesto e atividades, clamando por ações contra a discriminação e a violência e por mais espaço de decisão, inclusive na organização das próximas conferências. Alessandra Nilo se virou em várias pelo número de reuniões das quais participou, em três turnos, tendo destacada participação em quatro painéis, só para citar alguns exemplos.
Desta conferência podemos lembrar de muita coisa, visto o grande número de atividades e estímulos a que estivemos expostos durante os seus seis dias. Saímos todos da simpática cidade de Toronto cheios de energia e entusiasmo e com o compromisso de unirmos esforços em busca de um mundo melhor e de um continente americano voltando a figurar na lista de prioridades dos tomadores de decisões.
Liandro Lindner
Jornalista
llindner@terra.com.br
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