Como fazer prevenção num cenário repleto de contradições? – Marta McBritton é coordenadora do Instituto Cultural Barong

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Por Marta McBritton

Recentemente, o deputado federal Jair Bolsonaro declarou que fará tudo para atrapalhar as “discussões sobre sexualidade infantil” e a implementação do “kit gay” nas escolas, tema que deverá ser pauta da Comissão De Direitos Humanos em 2014. Na verdade, trata-se de discutir a implementação e a ampliação de projetos de educação sexual nos colégios em que a distribuição de um “kit educativo anti-homofobia” está inserido num contexto pedagógico, com a finalidade de proteger os jovens contra a discriminação e promover conhecimento sobre saúde sexual e reprodutiva.

É esse processo de educação continuada que o deputado federal pretende atrapalhar. Não será o primeiro embate a ser enfrentado por ativistas e educadores – é só lembrar do Carnaval de 2011 , quando toda uma campanha voltada para homens que fazem sexo com homens também foi retirada do ar às pressas por incomodar setores conservadores.

Durante o período do Carnaval, todos aqueles que trabalham com HIV/aids, ONGs e OGs recebem solicitações da iniciativa privada para atividades de prevenção. Raras são as empresas que, de fato, têm uma política de prevenção durante todo o ano, embora, desde 1987, o tema deva ser tratado obrigatoriamente durante a Semana Interna de Prevenção de Acidentes no Trabalho e na Saúde( SIPAT). Geralmente, estes pedidos consistem na doação de preservativos e alguns folhetos, apenas para marcar a data. Embora louváveis, essas iniciativas esporádicas acabam por não fazer muita diferença no dia a dia do trabalhador que, obviamente, não transa só no Carnaval.

Mas a dificuldade nas questões que envolvem a sexualidade não faz parte só do dia a dia dos educadores e gestores. Assistindo a uma entrevista do coreógrafo Ciro Barcellos, diretor do consagrado espetáculo “DZI Croquettes em Bandália” que tem a casa sempre lotada em suas apresentações no Rio de Janeiro e já conta com uma temporada de viagens em diversas capitais do Brasil, Nova York e Paris, ouvi pasmada que o espetáculo não obtém patrocínio porque o setor empresarial não quer associar a imagem de seus produtos a um espetáculo cujos atores são bailarinos com figurinos femininos. Detalhe: a “madrinha” deste espetáculo é simplesmente a Lise Minelli.

Pois é, o Brasil é um país estranho, nossos publicitários usam e abusam de apelo sexual para vender produtos, mas pouco se envolvem em apoiar causas, espetáculos e projetos que contemplem a educação sexual e reprodutiva. Por outro lado, o Brasil é signatário da estratégia do Unaids/Onusida que tem como metas até 2015:

•zero novas infecções;
•zero mortes relacionadas à HIV/aids;
•zero discriminação.

Neste cenário de contradições, como “revolucionar a prevenção” e alcançar as metas citadas acima? Obviamente, não serão campanhas pontuais de prevenção durante o Carnaval que provocarão reflexão sobre as questões de desigualdade de gênero, direitos humanos e orientação sexual, elementos fundamentais para mudar a trajetória do HIV.

Considero fundamental aumentar a distribuição de preservativos durante as ocasiões de festas, bem como as estratégias de redução de danos e oferta da contracepção de emergência. Mas sem um trabalho continuo, que faça frente à hipocrisia instalada quando o tema é educação sexual, dificilmente alcançaremos as metas de 2015 estabelecidas pelo Unaids.

Nesse sentido, parece interessante a intenção do Departamento Nacional de DST, Aids e Hepatites Virais, em “não concentrar as ações de comunicação em HIV/aids durante os festejos de Carnaval e sim manter o tema na mídia por mais tempo”.
Então, esperemos para o ano de 2014 uma ocupação na mídia de campanhas de prevenção, assistência e combate ao preconceito e muitos “rolezinhos” com preservativos!!!!

Marta McBritton é coordenadora do Instituto Cultural Barong

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