Sérgio Guerra
De Angola, onde vivo há cinco anos, acompanhei um pouco a repercussão da XV Conferência Internacional de Aids na Tailândia e a divulgação dos números mundiais de prevalência. Mais uma vez, a epidemia recebeu destaque da imprensa, graças ao encontro. Em meio a tantas notícias, me chamou atenção, ou mesmo me espantou, o fato de que em muitos destes veículos de comunicação que repercutiram as informações, uma vez mais apareceu nas matérias sobre os níveis de contaminação a denominação grupo de risco.
Constato que o conceito ainda se repete em bocas muito influentes do jornalismo ou, mais preocupante ainda, da medicina e da ciência.
Essas co-relações sobre as formas de contágio e os veículos de risco tradicionais, paradoxalmente, são citadas ao lado dos índices sempre crescentes da epidemia, com uma forte tendência deste crescimento entre os homens e mulheres heterossexuais, sendo que elas que já detém um número superior a 50% da população atingida.
Tais informações me fazem pensar um pouco no processo do avanço da epidemia, no seu início em São Francisco, onde a partir de uma comunidade de quatro homens doentes se estabeleceu a denominação “peste gay”, provavelmente oriunda de macacos africanos que de alguma forma eram comidos pelos “nativos”.
De lá para cá aconteceram muitos fenômenos que mudaram o perfil da epidemia, sendo os mais importantes deles o crescimento das infecções entre as mulheres, os heterossexuais, os jovens e a população de baixa renda. Na verdade, o mundo só passou a ter números da epidemia na África a partir dos anos noventa, aproximadamente dez anos depois da “peste gay proveniente do macaco africano”.
Hoje, mais de vinte anos depois da definição do vírus, a epidemia chegou nas Américas a uma contaminação inferior a 1% da população. Mas agora, em vez da proporção de um caso feminino para 90 masculinos, constata-se uma maior incidência entre as mulheres e homens supostamente heterossexuais. De quem é a culpa? Sim, porque é necessário justificar como este crescimento pôde acontecer se a ciência passou tantos anos a nos dizer que a possibilidade de uma mulher ser transmissora do vírus por via sexual é de uma em mil. Logo, a culpa só pode ser atribuída aos usuários de drogas e aos bissexuais, elo entre a comunidade gay e as mulheres, elo entre o mundo marginal e a família, o grupo de risco.
Hoje, o mundo se volta em grande parte para a África, onde países como Botsuana chegam a apresentar níveis de contágio de 40% da sua população sexualmente ativa e em números absolutos chegamos a mais de trinta milhões de infectados. Uma população maior que a de Portugal, Suíça, Bélgica e Noruega juntas.Um mercado consumidor com trinta milhões de clientes não passaria despercebido pelo mundo, e o que vemos hoje nos países da África Austral é um sem-número de iniciativas, que acontecem através de programas de assistência, de prevenção, de controles, de educação. Dos EUA, foi anunciado no ano passado um investimento de US$ 15 bilhões para os próximos cinco anos. Bastaria esse investimento para justificar o interesse desta temática na África.
Não tenho aqui nenhuma pretensão científica e sou testemunha de que, embora algumas iniciativas sejam exclusivamente comerciais, existem pessoas e projetos muito bem intencionados. O que me preocupa é a forma como estão chegando esses programas, é flagrar um verdadeiro exercício teleológico nessa inserção local. O que me preocupa é o que parece uma procura na identificação dos culpados pelo alastramento da epidemia. O que me preocupa é a arrogância de chegarem a este continente insistindo na teoria do grupo de risco.
Onde estão os gays africanos? Pergunta o doutor especialista em Aids, recém chegado do estrangeiro, às enfermeiras locais. Estas dizem, no primeiro momento, desconhecer, mas a cada lembrança de alguma delas o caso é automaticamente contabilizado como mais um indício comprobatório da sua teoria. Pelo que se conhece até hoje, através da história e da antropologia, o homossexualismo nunca foi um traço muito constante nessas populações, como então pode ser explicado o crescimento da epidemia e os quinze milhões de homens infectados na África? Temos que encontrar os gays africanos?
Me pergunto se os homens responsáveis pela ciência, que passaram dez anos para providenciar números da epidemia entre os negros da África Austral e assistiram silenciosamente ao crescimento das infecções, não conseguiriam se despir das suas teses para tentar compreender a epidemia num continente onde os índices chegam a ser 50 vezes maiores do que os dos países americanos, onde foram estabelecidos os parâmetros de conhecimento da propagação do vírus.
Penso que o crescimento da epidemia nas Américas em parte pode ser creditado a uma comunicação equivocada, onde prevaleceu integralmente o conceito de grupo de risco, fazendo subentender que o contágio não atingiria os heterossexuais. Penso que podemos perder mais tempo do que o que já se perdeu para tentar comprovar a tese de um vírus com transmissão unidirecional, agora no continente africano. Tempo, que hoje é o bem mais precioso para mais de trinta milhões de pessoas que vivem com o vírus na África e não conseguem saber o que são os bilhões de dólares prometidos pela comunidade internacional para conter o crescimento da epidemia nesse tão desprestigiado continente.
Sérgio Guerra é publicitário e trabalha com comunicação em Aids desde 1990 no Brasil e nos últimos cinco anos em Angola, onde reside atualmente.
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