Alexandre Padilha*
24/06/2016 – A convite do Unaids (Programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids), estive em Nova York no começo deste mês apresentando o trabalho feito pela gestão do prefeito Fernando Haddad para eliminarmos a transmissão do vírus da aids em São Paulo até 2030. Cidades de vários países estavam no encontro, que antecedeu a Assembleia Geral da ONU para Aids, ocorrida entre os dias 8 a 10 de junho. Do Brasil, apenas São Paulo e Salvador foram convidadas.
A entrada das cidades na resposta global contra a aids poderá trazer a ousadia que ainda falta para vencermos esta luta e não deixarmos ninguém para trás. Os municípios sentem mais de perto os problemas, até por obrigação são mais ágeis nas respostas. Podem ajudar a impulsionar os governos nacionais e impedir paralisias e retrocessos.
Foi mais uma importante oportunidade para pautarmos as iniciativas de São Paulo, que ainda enfrentam resistências, em muitas nações, tais como: distribuição gratuita de preservativos masculinos e femininos, novas estratégias para abordagem ao uso abusivo de drogas e o uso das profilaxias pré e pós-exposição.
Vivemos hoje uma epidemia concentrada em alguns grupos em situações de altíssima vulnerabilidade e, por isso, tem sido o segmento com o maior crescimento dos casos no município. Falamos com jovens sobre suas dificuldades em acessar os serviços de saúde. Por isso, inovamos aos levar “jumbos” – grandes dispensadores de camisinhas – para dentro dos 28 terminais de ônibus. Já foram mais de 16 milhões de preservativos retirados gratuitamente em apenas quatro meses, garantindo mais prevenção aos moradores.
O diálogo com a população trans garantiu o Transcidadania e estamos levando educação e saúde – tratamentos e hormonioterapia — para uma população que, nas gestões anteriores, estavam à margem das políticas públicas.
Junto com a sociedade civil levamos a testagem para além dos muros das unidades de saúde. Tenho plena certeza de que é possível enfrentar uma epidemia concentrada quando colocamos esses segmentos como protagonistas deste enfrentamento.
O programa De Braços Abertos também despertou o interesse dos presentes – afinal, dados do monitoramento, em março deste ano, apontam que 88% dos beneficiários reduziram drasticamente o consumo do crack, aceitaram fazer teste rápido para HIV e receber medicação para tuberculose, por exemplo. Destaquei que o Programa Municipal inova ao buscar novas estratégias para as populações-chaves da epidemia
Uma pesquisa realizada no ano passado e divulgada esta semana pela Open Society Foundations e pelo Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM), em conjunto com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e o Laboratório de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos da Unicamp, trouxe resultados muito semelhantes ao De Braços Abertos. Com base nisso, o prefeito Haddad tomou a decisão correta de duplicar o número de vagas do programa até o fim deste ano. Serão 500 novas vagas para atender cerca de 220 pessoas que fazem uso abusivo de drogas na região conhecida como Cracolândia e o restante será ampliado para outras regiões da cidade.
Tenho o senso de realidade dos enormes desafios a cumprir para a meta de eliminar a transmissão da aids até 2030 em nossa cidade, mas o dia a dia do protagonismo de representantes das populações-chave me enchem de otimismo. Elas não podem ser tratadas como números na gestão das políticas públicas. Elas representam vidas, sonhos, perspectivas.
Ao mesmo tempo, devo lembrar o pessimismo com os sinais do governo interino brasileiro e a perplexidade de delegações internacionais sobre a minguada participação da delegação brasileira na Assembleia Geral que aconteceu em seguida e reuniu os chefes de Estado de todo mundo. Pela primeira vez esse aconteceu sem ministro e sem representante do movimento social, o que nos obriga a ficarmos em estado de alerta.
O reconhecimento internacional dos nossos avanços e das dificuldades só reafirmam que qualquer estratégia passa, necessariamente, por não permitirmos o retrocesso no SUS.
* Alexandre Padilha é médico infectologista, secretário municipal da Saúde de São Paulo, ex-ministro da Saúde do governo Dilma Rousseff e da Coordenação Política do governo Lula.
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