CARTA A UMA CRIANÇA QUE UM DIA RECEBEU PEDRAS – Elizabete Franco Cruz é psicóloga e profa. EACH/USP

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Elizabete Franco

Oi, tudo bem? Você não me conhece, aliás, nem eu te conheço, mas tive vontade de escrever para você! Sei seu nome, mas vou te chamar de Luz… Você deve ter dois ou três anos e nem sabe ler ainda. Talvez um dia, se der sorte de conseguir chegar até uma escola, e nela conseguir permanecer, vai aprender a ler. E, então, com nove ou noventa anos, talvez entenda os sentidos desta carta que te escrevo.

Fui fazer uma palestra em um encontro de pessoas vivendo com HIV/Aids e ouvi o depoimento de sua mãe. Ela contou que é portadora do HIV e que quando você nasceu desesperou-se, porque não podia amamentar, e porque não encontrava leite no serviço de saúde da cidade onde moram. Para obter ajuda chamou a TV que combinou que não mostraria o rosto dela, mas, mostrou. No mesmo dia, ela saiu na rua com você no colo e vocês foram APEDREJADAS!!!

Alguns jovens jogaram pedras na sua mãe porque ela tem Aids. Uma pedra acertou na sua cabeça, que chegou a sangrar…Você tinha dois meses.
Resolvi te escrever esta carta porque acho que um dia você vai ficar sabendo desta história, porque alguém vai te contar, ou talvez porque você tenha uma cicatriz, no corpo ou na alma. O dia em que vi sua mãe falando percebi que ela tinha uma ferida aberta, não uma cicatriz…Ela ainda chorava a dor do episódio.

Talvez esta história nunca signifique nada para você. Ou, talvez, você tenha muitos “por quês”? Por que comigo? Por que com minha mãe? Por que isto aconteceu?

Sinceramente não sei, mas apesar de não saber posso te dar muitas respostas.Tenho muitas que aprendi nos livros e em anos de experiências em trabalhos sociais e também com a aids.Mas não sei qual resposta vai fazer sentido para você e se algumas das que tenho vão te servir.Na verdade, eu também tenho muitas perguntas e inquietudes.

Deste modo, o que posso fazer é te deixar umas pistas, para que você construa respostas. Imagina um caledoscópio…cada vez que você vira surge uma imagem, uma nova configuração de elementos,formando imagens.Aqui meu espaço é pequeno, então vou te falar somente de alguns elementos que compõem estas imagens.

O primeiro é que você tinha dois meses, portanto ainda não tinha tido tempo de fazer nada para ninguém… a não ser ter nascido.Nascido, por acaso, uma menina, por outro acaso pobre, e por mais um acaso, filha de uma mulher soropositiva num estado do norte de um país como o nosso,e por outro negra, você enfim era uma criança brasileira.Logo as pedras que recebeu tinham pouca relação com você. Elas falam mais a respeito de nós que fazemos parte do mundo no qual você chegou.Nós que escrevemos a história deste país.

E escrevemos bem bonito! Colocamos na Constituição que as crianças têm prioridade! Depois fazemos um Estatuto da Criança e do Adolescente! E defendemos bravamente em teses e artigos (que poucos lêem) que as crianças são sujeitos de direitos.

E a gente não só escreve não! A gente fala também.Veja as campanhas políticas! Ouça ativistas, pesquisadores, professores das escolas, das universidades, profissionais de saúde, juizes. A gente fala bonito! Muitos até brigam, ficam competindo para ver quem fala mais bonito, quem fez a pesquisa, o projeto, o texto, a escola e o serviço de saúde, mais bonito! E muitas pessoas acham que aquele que esta na mídia é o mais bonito e bacana.Ou até aquele que berra mais alto e fala mais grosso!

No entanto, neste contexto existem elementos que para alguns são “detalhes”, mas que são pontos centrais: na sua cidade falta leite, em alguns serviços de saúde os profissionais não gostam de atender mulheres soropositivas como a sua mãe, o estigma e a discriminação em relação a pobreza e a aids ainda são fortes no Brasil.

E tem mais: existem inúmeros problemas no modo como se (in)efetivam as políticas publicas para crianças e jovens num país como o nosso,no modo como tudo aquilo de bonito que a gente diz, escreve e defende acontece na vida das crianças brasileiras e das crianças brasileiras como você.

No dia que sua mãe contou a história de vocês, existiam muitas pessoas no auditório e nos choramos com ela. Penso que choramos porque pudemos nos sensibilizar e sentir o tamanho da dor e da tristeza nas palavras que ouvíamos. E choramos ainda, porque este episódio mostra que, apesar de tanto ativismo e empenho na luta contra aids, ainda temos muito que enfrentar, ainda nos deparamos com desafios deste porte, que significam uma grotesca violação de direitos humanos.

É uma grande tristeza para quem sonha com novas possibilidades….Não conseguimos superar o preconceito, e olha que mundo oferecemos para você, que está chegando!

Gosto de ler as idéias de um pensador que se chama Michael Foucault.Ele nos convida a não termos pensamentos binários…ou tudo está ruim, ou tudo esta bem…os bons e os maus…

Concordo com ele, e acredito que precisamos ficar atentos, pois poderíamos pensar nos “maus”, “os preconceituosos que jogam pedras” ou ainda, nos “maus”, “aqueles que não atendem bem as crianças, os jovens e as mulheres” Esta linha de raciocínio é uma armadilha! A vida social é mais complicada do que isto, é uma teia, uma maquinaria, uma espécie de máquina de fazer gente. Gente adormecida na mesmice, gente que está morta apesar de ter o nome de viva.Quem sabe as pedras não nos acordam? Você é Luz! A iluminar as pedras e a sementes que cada sujeito, cada um nós pode ter nas mãos.

Portanto, não pegue estas pedras para você não…Elas são da sociedade… Espero ficar bem velhinha acreditando que por entre pedras de concreto emergem lindas flores coloridas.
É duro manter acesa esta chama, mas por isto inventamos o amor , a amizade e espaços sociais de acolhimento.

Sei que no Brasil existem muitas pessoas, entre as quais me incluo, sonhando e buscando plantar sementes para ver se abrem brechas por entre pedras que fazem sangrar.

Talvez eu seja meio desajeitada, mas escrevi para te dizer tudo isto! E também para dizer que espero que você cresça e que seja uma menina/jovem/mulher do norte/negra/brasileira.

Que você tenha uma força visceral para ser quem você quiser ser. E que – apesar dos “por acaso” que marcaram sua vida, e do descaso nada casual para com a aids, a infância e a pobreza – você seja feliz e vicejante!

Tchau, um beijo cheio de carinho e esperança!

Bete

Elizabete Franco Cruz é psicóloga, profa. EACH/USP

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