Henrique Contreiras*
16/02/2016 – No primeiro Carnaval após o desmonte do programa estadual Rio Sem Homofobia, minha festa começou com agressão homofóbica. No cortejo pré-carnavalesco do bloco Cordão do Prata Preta, na região portuária da capital fluminense, eu beijava um rapaz quando um latão de cerveja atingiu nossas cabeças. Lembro bem a imagem dos olhos do garoto em choque e da cerveja escorrendo pela testa. A lata deve ter sido arremessada de um bar próximo, por algum frequentador local, com a anuência dos que estavam em volta.
Eu podia ter partido na direção do bar, ter mobilizado a multidão ao redor para nos proteger, ter pedido ajuda à banda, ter ido à policia — tudo exigiria um enorme esforço e a colaboração de desconhecidos. Acabou que só aceitei a sugestão do primeiro deixa-disso, "é melhor sair, não estão gostando", e baixei a cabeça, tentando consolar o rapaz com palavras sobre resiliência, na falta de reação mais proativa. Ele foi embora, triste.
A verdade é que é difícil lutar quando há um consenso que normaliza a homofobia e entende como imprudência a manifestação da homossexualidade. Não é fácil encontrar apoio em meio à paralisia gerada pela violência física, típica das intolerâncias às minorias sexuais. E, para agravar, há os obstáculos da homofobia institucional, que dificultam o acesso aos serviços policiais e de saúde.
É essa realidade que tentava mudar o programa governamental, cujo declínio iniciou no ano passado, com atraso de salários. Em dezembro, o governador Luiz Fernando Pezão nomeou o pastor Ezequiel Teixeira para a pasta responsável pelo programa, a Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos. O pastor é conhecido por suas declarações homofóbicas. Em janeiro, o desmonte: 65 dos 85 funcionários do Rio Sem Homofobia foram demitidos.
* Henrique Contreiras é médico sanitarista e colaborador da Agência de Notícias da Aids.
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