Começamos a reverter a situação. No início da quarta década da explosão pandêmica de HIV e aids, expectativas, antes não otimistas, agora atentam para uma reversão frágil, mas não mais utópica, nas perspectivas médicas, epidemiológicas, políticas e sociais relacionadas à disseminação.
A história evolutiva do centenário vírus, desde seu surgimento na transmissão entre chimpanzés e humanos na África, no início do século passado, até os 33 milhões de afetados atuais, parece estar ganhando uma nova dimensão. Evidências estatísticas revelam uma estabilização mundial, e possível declínio, no número de novos casos de infecções pelo vírus em complemento a uma maior disponibilidade e aderência aos tratamentos antirretrovirais, a um menor número de mortes relacionadas à aids e, no contexto social, a uma maior conscientização da população.
O Brasil em meio à complexa e avassaladora pandemia se fortaleceu como um caso-modelo de saúde pública. O país do futebol é também o país que luta contra o HIV! Desde 1996, o Brasil é um pioneiro na oferta gratuita de medicamentos antirretrovirais e no acesso à assistência médica e laboratorial relacionada à infecção. Apesar de todo o esforço para conter a epidemia e dos recentes avanços mundiais em relação à queda no número de novas infecções, as estatísticas brasileiras quanto à mortalidade associada à aids ainda não são um modelo. Causa: diagnóstico tardio.
O principal desafio do Brasil na infecção crônica e ainda sem cura causada pelo HIV ainda reside no diagnóstico. Mais de uma pessoa morre por hora no país em consequência da aids, sendo a maioria delas relacionada à ineficiência do tratamento em estágios avançados da doença. A exemplo de Angola, a solução parece envolver a participação ativa dos centros de testagem e a plena eficiência de campanhas para diagnóstico.
Políticas públicas e privadas penetram neste desafio e sustentam parte das vitórias recentes, projetando-se nos obstáculos futuros. Da mesma forma, estudos científicos se complementam na ação e engrenam áreas relacionadas à virologia. Em sintonia, pesquisadores buscam na ciência uma solução para a corrente epidemia e viabilizam resultados promissores para os campos da imunologia, epidemiologia, genética e biologia molecular. Estamos chegando lá! Pesquisas recentes revelam uma reversão na função dos medicamentos antirretrovirais: antes como tratamento, agora como possível prevenção e esperança. O esforço brasileiro, a exemplo, foi suficiente para o desenvolvimento de um teste rápido que pretende ampliar o número de diagnósticos no país: tecnologia brasileira, desenvolvimento brasileiro, benefício brasileiro.
A desorientação e a desumanização causadas pela epidemia do HIV devem ser passadas a partir das novas perspectivas estabelecidas por diferentes modelos de ação. A verdadeira cura para a infecção ainda parece estar longe, mas o lema “Zero infecções, zero discriminação e zero mortes relacionadas à aids”, proposto pelo Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas para o HIV e Aids), já parece estar um pouco mais próximo da realidade, graças ao esforço de atividades públicas e dos constantes progressos científicos.
Dennis Maletich Junqueira é professor e pesquisador científico na área do HIV na Fundação Estadual de Produção e Pesquisa em Saúde (FEPPS) do Rio Grande do Sul.
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