José Araújo Lima FilhoProfessor Haddad, o parabenizo pela vitória e o alerto para as muitas coisas que precisam ser feitas. Esses dias, o vi sentado com o atual prefeito organizando a transição, e gostaria de convidá-lo para sentar-se junto – se me permite, gostaria de ser um deles – aos cidadãos paulistanos para que possamos relatar, sem maquiagem, a atual situação da saúde pública em nossa cidade. Na minha carteira há um cartão do SUS do qual tanto me orgulho de ter elegido como meu único plano de saúde, mas que atualmente pouco vem sendo usado, não por falta de necessidade, mas por ter negado um dos direitos fundamentais da pessoa humana. A saúde de São Paulo clama por socorro.
O senhor sabe, por exemplo, que as últimas administrações tem sabotado a maior instância do controle social da cidade: o Conselho Nacional de Saúde (CNS)? Sim, senhor Haddad, o CNS tem sido motivo de chacota dentro da administração Kassab, e o que nos deveria servir como um espaço legítimo, hoje luta dignamente para se manter como resistência a uma politica de sucateamento da saúde na cidade. Muitas vezes não conseguimos engolir e decifrar a grande sopa de letras que nos habituamos a conviver nesta cidade.
Mas agora falemos das AMAs (Assistência Medica Ambulatorial). O que era para ser uma grande proposta, vive em superlotações que nos faz sentir como numa prisão sem saída. Eu, por exemplo, precisei de um atendimento e fui encaminhado a AMA do Capão Redondo – com o cartão de visita da administração atual. Pasme, senhor Haddad, existiam tantas pessoas na recepção que não podíamos tirar o pé do lugar sem que evitássemos pisar no da pessoa ao lado, e não estou falando figurativamente. Era real.
Já nas UBSs (Unidade Básica de Saúde), a situação não é diferente. Os usuários, que em sua maioria são mulheres, crianças e idosos, são obrigados a enfrentar longas horas de espera para serem atendidos de maneira precária devido a superlotação, além da falta de profissionais que possam atender ao público, que vêem nesses espaços sua esperança de vida.
Se me permite mais uma vez, gostaria de falar ainda de uma patologia que tem sofrido diretamente as consequências deste sucateamento da saúde na cidade: a Aids. Nessa cidade, professor, existe uma politica para Aids que patina na burocracia e nos loteamentos políticos que dispomos atualmente.
Os SAEs (Serviço de Atendimento Especializado) respiram como um moribundo prestes a morrer, por falta de profissionais e pela grande quantidade de pacientes – com suas fragilidades físicas e mentais agravadas pelo atendimento deficiente. Essas unidades, direcionadas as pessoas com HIV/Aids tem grandes profissionais que não conseguem vencer o sistema implantado, afinal as OS proporciona melhores salários do que os profissionais que são contratados pela prefeitura.
Nesse caso, continuo sem compreender e talvez, como grande professor que você é, possa me esclarecer melhor. Como é possível a prefeitura terceirizar várias unidades de saúde e ter nelas profissionais mais bem pagos que os que ela contrata? Sim, Temos grandes profissionais sentados no vagão de terceira classe e pacientes na estação “Doença”, tentando “pegar” o trem da saúde.
Além disso, temos na maior cidade do país, um Programa de Aids, mas infelizmente senhor Haddad, é um programa, como dizia a minha avó, “ para inglês ver”, ou seja, ele não funciona como Programa. Já trocamos de coordenação mais do que times de futebol trocam de técnicos quando as coisas não vão bem, e essas trocas nunca apresentaram clareza para a sociedade.
A equipe técnica do Programa de São Paulo é muito boa, mas está amarrada no bom humor das coordenações regionais de saúde, que se encontra apadrinhada pelo atual prefeito. Com isso, “Ele” (O Programa) é sufocado pelas decisões “politiqueiras” e a sua incapacidade política vem matando a parte técnica. Todos sofrem juntos. O nosso PROGRAMA não existe e continuará não existindo enquanto a “doença” do loteamento político não for sanada .
Dizem que “Elvis não morreu”, posso garantir senhor Haddad que a Aids não acabou. Mais de 50% da epidemia do Estado de São Paulo está na capital, e isso é grave, afinal, estamos passando por dificuldade para que os serviços absolvam os novos portadores do HIV/Aids.
Ao mesmo tempo, gostaria de lhe atualizar de mais um fato, que com certeza o senhor Kassab escondeu e/ou esconderá. O senhor sabe a diferenças dos trabalhos das OSs (Organização Social) e das ONGs? As OSs são terceirizadas para fazerem a saúde caminhar, oferecendo salários justos e visando um atendimento de qualidade, que nem sempre alcançam as ONGs, são organizações que estão em toda a cidade e trabalham heroicamente para evitar que as epidemias aumentem e os direitos humanos sejam respeitados. Pois bem, esse trabalho, quando realizado via projetos, juntamente com a Secretaria de Saúde, beira ao trabalho escravo.
Se lhe serve a opinião de um cidadão possuidor da carteira do SUS de número: 8980014237401321, esqueça tudo que o atual prefeito esta transmitindo a equipe de transição, e vamos caminhar pelos equipamentos de saúde da cidade, e verá que o “Mundo de Alice” nunca existiu e tem transformado nossa peregrinação por saúde de qualidade em uma via crucis impossível de ser retratada em filmes, pois ela é muito real.
Para finalizar, acabo de saber que o atual prefeito o convidou para uma viagem a Paris. Assim, estendo o meu convite ao senhor para conhecer o Jardim Paris, que fica no bairro Campo Limpo – zona sul de São Paulo. Sei que a cidade das luzes é muito interessante, mas aqui vivemos do pouco que resta do muito que existe na cidade e com sua visita ficarão mais óbvias e notáveis as nossas necessidades.
Seja bem vindo prefeito Haddad, e estou torcendo para que faça história na saúde de São Paulo e não que a história enterre sua biografia, como aconteceu com seus antecessores.
Jose Araujo Lima Filho é ativista do movimento social de luta contra a aids e coordenador do Espaço de Prevenção e Atenção Humanizada (EPAH) em São Paulo.
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