Banalizar a aids é banalizar a vida – Rodrigo Pinheiro é presidente do Fórum das ONG/Aids do Estado de São Paulo e secretário político da Articulação

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Rodrigo Pinheiro*

Passados mais de 30 anos do surgimento dos primeiros casos de aids no Brasil, observa-se a mudança de percepção que a doença tem sofrido na interpretação da população em geral, principalmente na ação governamental como resposta pública a um fato social deste tamanho. Tivemos a primeira onda do pânico, quando qualquer indício da doença significava morte rápida, exclusão automática e medo constante. A condução da informação não colaborou para o fomento da solidariedade e, sim, foi fator a mais de preconceito. A autoridade de saúde, perdida naqueles primeiros momentos, engendrou ações que visavam gerar o temor. É desse tempo o clássico conselho: “ Se você não se cuidar, a aids vai te pegar”.

A segunda onda veio com o advento dos antirretrovirais, os medicamentos que chegaram, primeiro, para gerar uma sobrevida às pessoas soropositivas. Depois, para garantir a qualidade de vida destes. Já era possível viver com aids, enfrentando os problemas do dia a dia e superando as dificuldades. Claro que o simples uso dos medicamentos é pouco para falar em conquista de qualidade de vida, mas o surgimento deles gerou uma falsa ideia de que “estava tudo bem”.

De sua parte, a ação governamental ajudou a contribuir para com essa falsa imagem. Com a intenção de diminuir o preconceito, ampliou a divulgação de campanhas públicas exibindo pessoas saudáveis e sorridentes, como se anunciando que a vida de quem vive com aids é plena de felicidade. Ficaram esquecidos os efeitos colaterais, as co-infecções, as necessidades de mudanças de estilo de vida, o preconceito constante e a conhecida limitação do serviço público de saúde. Foi um tempo em que se quis vender a “aids glamour.”

Hoje, vivemos uma terceira onda da forma com que se quer “vender” a idéia da aids no Brasil. As últimas políticas anunciadas indicam que o caminho governamental para o enfrentamento passa por duas ordens claras: “descubra o mais rápido possível e não transmita para ninguém”. Alheio à realidade das pessoas que vivem com HIV/aids, principalmente nas questões apontadas pela sociedade civil organizada, o governo federal investe cada vez mais em ações fáceis, desprezando anos de avanços na concepção de saúde aliada a direitos humanos.

Estamos ouvindo propostas curiosas, como o fim do aconselhamento na testagem e a venda de kits de autoteste em farmácias e outros locais. Um teste cujo resultado impacta fortemente na vida exposto nas prateleiras ao lado de sabonetes e cotonetes. Na ânsia de se localizar o vetor transmissor do HIV várias organizações da sociedade civil estão sendo cooptadas para essa prestação de serviços ao Ministério da Saúde, testando pessoas em vulnerabilidade sem garantia de retaguarda de tratamento e com ativistas preparados com um treinamento raso. Além disso, a sucessiva insistência de transferência do atendimento especializado para a atenção básica e a mudança recente do esquema medicamentoso, fornecendo remédios fortes para a pessoa com diagnóstico positivo independentemente do seu quadro de saúde, somam fatores de culpabilização e responsabilização única à pessoa que vive com HIV/aids.

Vivemos um tempo de banalização da própria vida com aumento da violência e dos crimes institucionais, com ampliação do descaso do estado e com a queda da intersetorialidade como preceito de saúde pública mais ampla. Vivemos também um tempo de banalização da aids. Se antes o medo se destacava e depois se tentou vender a ideia do “controle”, hoje o que se nota é a estratégia de tornar banal um resultado positivo – que poderá ser acessado individualmente por qualquer um sem espaço de conversa mínima para isso.

Pelo andar, em breve teremos novos casos com pessoas mais desorientadas e um número maior ingerindo medicamentos que geram consequências no organismo e possível segregação social. A resposta do momento é totalmente medicamentosa. Saúde pública sem direitos humanos respeitados é mero higienismo disfarçado, que gera banalização de coisas sérias e respostas meramente artificiais e limitadas.

Rodrigo Pinheiro é presidente do Fórum das ONG/Aids do Estado de São Paulo e secretário político da Articulação Nacional de Luta contra Aids

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