Avanços e desafios na resposta ao HIV

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A AIDS 2026 foi muito importante por ter acontecido no Brasil, no Sul Global, em um país como o nosso, que escolheu, no passado, construir sua política de aids juntamente com a sociedade civil, com a comunidade. Muitos dos resultados exemplares que a política de aids alcançou globalmente foram possíveis justamente devido a essa construção conjunta entre diferentes atores sociais, como governo, sociedade civil e pessoas vivendo com HIV e aids.

Do ponto de vista científico e biomédico, foi também uma conferência muito importante, que trouxe muitos avanços e progressos.

Tivemos, nesta conferência, a prevenção de longa duração, que já havia aparecido em Munique, com o lenacapavir. Mas, aqui, na AIDS 2026, surgiu, como fase 3, uma droga que vai ser um grande sucesso: a PrEP de um comprimido ao mês, que termina virando também uma PEP. Há possibilidade também de tratamento com um comprimido mensal.

São muitos avanços da medicina, coisas completamente inimagináveis para mim, como ativista que vem do final dos anos 1980.

Esses avanços não foram dados; foram conquistados. Conquistados por muito esforço, não apenas pela dedicação da ciência, mas porque a própria sociedade civil pediu para acelerar o processo e porque eles foram conquistados. Esses avanços, a gente tem que ter isso na história do HIV.

E, na AIDS 2026, surge também um outro elemento: a crise de financiamento na resposta global ao HIV. Isso já se sente em alguns países, países com alta prevalência, com ameaças a diversas políticas de HIV e aids. Como ativista, isso me preocupa, e muito.

Essa crise financeira sem precedentes que a política de aids vem enfrentando é inadmissível. Um dado que surgiu é que 90% dos recursos para a sociedade civil de HIV e aids vêm de apenas 20 doadores. É absurdo esse número.

Isso mostra que a sociedade civil vive também uma crise na sua sustentabilidade. Mas a resposta à aids  já foi uma resposta capaz de transformar um quadro muito pior, no passado, em ação coletiva.

Então, no meio desse confronto entre o avanço e o progresso da ciência e a ameaça de cortes de financiamento, eu tenho uma esperança muito positiva. Porque, como a própria AIDS 2026 teve como tema a reconstrução, a história do HIV e da aids é feita de reconstrução.

Em momentos até muito piores, quando não tínhamos nada, diferentes atores se uniram para dar uma resposta ao HIV.

Então, eu também saio dessa conferência com esse otimismo. Não é um otimismo ingênuo, mas um otimismo baseado na própria história do HIV.

* Harley Henriques é fundador e coordenador-geral do Fundo Positivo e atua há quase quatro décadas na resposta ao HIV e à aids no Brasil. Iniciou sua trajetória no ativismo aos 19 anos, quando fundou o GAPA-BA (Grupo de Apoio à Prevenção à Aids da Bahia).

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