Abril Azul: autistas precisam de inclusão por direito, não por contingência

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Estamos novamente no Abril Azul, o mês de conscientização sobre o TEA (Transtorno do Espectro Autista), e segundo o CDC, nos Estados Unidos, uma em cada 36 crianças é autista. E de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), todas as pessoas, “incluindo pessoas com autismo, têm o direito de desfrutar do mais alto padrão possível de saúde física e mental.”

Será que um país como o nosso permite um mês de conscientização com mais motivos para celebrar ou para pensarmos no quão distante ainda está de nós esse padrão possível de saúde física e mental?

Eu sou uma mulher com alguns privilégios, quando olho para a realidade socioeconômica de uma parte imensa do meu país. Venho de uma família de classe média, branca, com pai e mãe presentes, nunca sofri o que muitas mães pretas e pobres sofrem nas periferias, sobretudo as mães-solo, para colocar comida e algum futuro na mesa de casa. Mas só fui entender bem adulta, aos 47 anos, parte importante da minha identidade como ser humano ao ser diagnosticada no espectro, em grau um de suporte, naquele diagnóstico revelado após meses de investigação com profissionais de saúde e com a participação de familiares e amigos meus. Costumo dizer que foi o fechamento de uma história para a qual faltavam algumas peças para encaixar: a história de uma infância e uma adolescência com tantos traumas e tanta dificuldade de entender que, na verdade, eu não era defeituosa. O que eu tinha era uma condição.

Hoje, deputada em primeiro mandato na Assembleia Legislativa de São Paulo, e uma entre as somente 23 deputadas mulheres (ao todo, são 94 cadeiras), vejo a importância que é ter mulheres, mães atípicas, ainda mais mulheres com deficiência e mães atípicas, em posições de poder. Formei uma equipe de trabalho mista, com pessoas neurotípicas e neurodivergentes, entre os quais, autistas em posições de chefia, para construirmos o que chamamos de Gabinete da Inclusão. Recebemos milhares de denúncias, compusemos uma equipe apenas para acolhê-las e dar a elas encaminhamentos e temos visto o tamanho do fosso que há pela frente para um “padrão possível de saúde física e mental” de pessoas com deficiência e seus familiares – muitas delas, autistas.

São cidades do Estado mais rico do país com até quatro anos de fila de espera para diagnosticar crianças que ainda não sabem se estão no espectro, embora muitos dos sinais já estejam ali – em um SUS (Sistema Único de Saúde) ainda tão carente de atenção, de dinheiro, de priorização.

São professores sobrecarregados e com formação deficitária, com salas de aula abarrotadas, sem saber como incluir aqueles que, por direito legal, precisam ser incluídos. Tampouco, sem profissionais de apoio também garantidos em lei. Eu, mesma, mãe de um adolescente autista grau 3 de suporte, não oralizado e aluno de escola pública estadual, sei bem o que é isso e o que é precisar recorrer à Justiça para assegurar ao meu filho o direito de ser incluído.

Por fim, no Abril Azul, não faltarão governantes e políticos em geral, em praticamente todas as esferas de poder, se valendo da bandeira da inclusão sob o contexto de bem acabadas peças de marketing – afinal, famílias atípicas rendem sempre bons votos lá adiante –, mas com pouco a mostrar, na prática, que nos faça entender a conscientização como algo mais a celebrar do que a se cobrar. Precisamos que abril seja o mês da conscientização do autismo, mas uma data de reforço desse tema, e não uma contingência. Porque não queremos privilégios: queremos tudo o que a lei nos garante, sem passos atrás e sem partidarismos. A saúde física e mental de todas as pessoas, incluindo as pessoas autistas, agradece.

* Andréa Werner, 49, é uma mulher autista em primeiro mandato como deputada estadual pelo PSB e mãe do Theo, um adolescente autista

Dica de entrevista

Gabinete Andréa Werner

E-mail: janaina@andreawerner.com.br

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