A Conferência de Toronto reforçou a certeza de que a Aids não está sob controle e de que não é mais possível o mundo conviver com tantas desigualdades de acesso a medidas de prevenção e tratamento. E tivemos que ir tão longe para também acordar sobre o quanto temos que discutir sobre o ativismo brasileiro.
O recorde de participantes, ultrapassando os 20 mil, e o desfile de celebridades, deixaram o ativismo político à sombra de um show que parece ser feito para os holofotes da mídia e não para apontar soluções.
A América latina permaneceu o tempo todo invisível, à margem das discussões. Era como se apenas a África e a Ásia concentrassem os problemas, pois só esses continentes foram pauta de citações, de referências e de reivindicações.
O Brasil continua a ser visto como referência e ninguém daqui teve a coragem de dizer em público que nosso modelo tem méritos mas está bem longe de ser ideal. A suposta referência brasileira na verdade chega a distorcer os dados da América Latina, pois quando somam os números de acesso a medicamentos no continente, incluindo o Brasil, fica a falsa impressão que a situação é boa para todos os latino-americanos, o que não é verdade.
Sem ter essa dimensão a sociedade civil do Brasil chegou até a Conferência marcada por desencontros de ações e sem discurso político.
Estive em cinco Conferências e com certeza essa foi a que mais serviu para refletir minha reflexão. Sabemos como caminhar em uma estrada que já foi construída em grupo, mas muitos preferem usar outros caminhos.
O que podemos refletir quanto ao financiamento de ativistas por laboratórios multinacionais, quando vivemos um momento tão decisivo de oposição à política de patentes destas empresas? A aceitação é incoerente e não levou em conta, por exemplo, a ação judicial movida por ONGs brasileiras contra o laboratório no dia primeiro de dezembro e a decisão do último ENONG em Curitiba, que recusou apoio de laboratórios para o evento, recusa que foi comungada pelo Comitê Político e pela Comissão Organizadora.
A capacidade brasileira de fabricação de medicamentos genéricos que combatem a Aids está constatada por estudos realizados, sem necessidade de mais questionamentos.
O ativismo brasileiro conseguiu salvar-se mediante falas pontuais em mesa quando informou que existem ações judiciais visando à licença compulsória contra o governo brasileiro e os laboratórios.
Não tivemos a tão desejada resposta a uma pergunta encaminhada pelo Américo Nunes (presidente do Fórum de ONG/AIDS do Estado de São Paulo), indagando a opinião de Bill Gates sobre a licença compulsória, mas não deixou de marcar o momento.
O ativismo esteve presente na abertura quando, juntamente com o presidente do Fórum de São Paulo, fomos pressionados pela segurança e pelos policiais locais, que impediram a apresentação de uma faixa nas qual exigíamos o acesso universal aos medicamentos.
Nas manifestações organizadas por ONGs de várias partes do mundo contra as posturas dos laboratórios referente às patentes estiveram presentes não mais que dois ativistas brasileiros. Esse fato foi o reflexo de como andam as ações ativistas no Brasil.
O Brasil foi de novo citado, reverenciado pelo que já foi realizado aqui , mas também foi criticado por alguns segmentos e ativistas que disseram não ver inovações na resposta brasileira.
A Conferência de Toronto não foi uma decepção, na minha visão. Possibilitou, mesmo não sendo o espaço ideal, a reflexão de que falta muito para a construção de nossas conquistas, de que estamos paralisados num momento de necessidades e de tomadas de decisões urgentes, de que estamos distantes dos espaços públicos e das instâncias políticas existentes. Corremos o risco de deixar de avançar ou talvez podemos nem conseguir manter o que conquistamos.
Muitos já sentaram em uma mesa de negociação com os laboratórios, visando um preço justo, uma patente que permita o acesso universal ao tratamento, mas o que conseguiram foi muito pouco. Por isso quebrar patentes e não realizar parcerias com laboratórios que só querem o lucro não é fazer discurso radical, é apenas nossa responsabilidade com a vida, que está com o prazo de validade a vencer todos os dias.
José Araújo Lima Filho é coordenador da Associação François Xavier Bagnoud do Brasil (AFXB). Telefone de contato: (0XX11)5842-5403. E-mail: araujo.l@uol.com.br
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