As eleições americanas e a população LGBT

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As vida de muitas pessoas que se identificam dentro do espectro LGBT, nos quatro últimos anos nos Estados Unidos, foram negativamente impactadas por medidas populistas pautadas em uma agenda racista, homo/transfóbica e violenta. Entre tantas medidas, o ataque à população trans dentro do exército americano e o silêncio do presidente para outros assuntos importantes para a comunidade marcaram de maneira negativa o governo americano atual.

Ainda que Trump, durante a sua primeira campanha, tenha aparecido com apoiadores LGBT, a escolha de Mike Pence como vice-presidente deixou uma mensagem clara de uma política violenta contra as minorias sexuais. Existia uma impossibilidade cognitiva de ligar Trump à pauta LGBT sendo Pence seu vice. As desconcertantes imagens de Trump com a bandeira do arco íris eram anuladas com o histórico de política anti-LGBT de seu vice.

O “já-quase-ex” vice-presidente americano tem uma carreira política conservadora e anti-LGBT que se perpetua durante décadas. Como governador de Indiana, por exemplo, ele perpetuou uma agenda discriminatória que durou todo o seu mandato. Em 2016 (um ano depois de deixar o cargo de governador), ele assume a vice-presidência sem nenhum indício de mudança nas suas perspectivas discriminatórias. Além de seus ideais baseados em ódio e preconceito, tanto Pence quanto Trump também tentaram eliminar vários avanços em relação à pesquisa com HIV e populações vulneráveis.

Portanto, os últimos quatro anos deixaram marcas que espero possamos mudar rapidamente.

A eleição de Joe Biden deve trazer um novo respiro à população LGBT. Biden, nos últimos anos, assim como vários outros políticos norte-americanos, passou a incorporar em seus discursos a população LGBT juntamente com várias outras minorias.

Contudo, mais importante do que Biden é a presença de Kamala Harris na sua chapa. Harris, vice-presidente eleita, que além de ser a primeira mulher negra a assumir o cargo, tem um histórico diametralmente oposto ao de Mike Pence. Ainda na Califórnia, Kamala Harris oficializou a primeira cerimônia de casamento entre pessoas do mesmo gênero quando conseguiram derrubar a “Proposition 8”. Ela também foi a responsável por eliminar a defesa por pânico trans nos casos de assassinato. Mais importante ainda, tem sido o seu trabalho com a população trans na Califórnia, tanto quanto procuradora do estado quanto senadora a partir de 2016. O histórico dela e o discurso abertamente partidário aos indivíduos que vivem no espectro LGBT mostram que mudanças favoráveis estão em curso.

A vitória de Biden e Harris vem, assim, como um alívio para a população LGBT nos Estados Unidos. Nos últimos quatro anos, presenciamos o crescimento de movimentos supremacistas que colocam em risco a vida de grande parte da população negra, indígena, LGBT e de outras minorias. A chegada do novo presidente deve trazer alento a muitos grupos que passaram os últimos quatro anos acompanhando um grande retrocesso nas políticas identitárias que garantem o direito à vida de populações vulneráveis.

O trabalho é grande e constante, especialmente para as populações mais vulneráveis como as mulheres trans e negras. Poucos anos de retrocesso podem causar muitos anos de atraso, portanto é preciso mantermos os olhos abertos, pensando de maneira interseccional sem deixar de lado as pessoas que não disfrutam dos mesmos benefícios e privilégios. É preciso garantir espaços de convivência e vida para todas, todes e todos.

Em tempo: As eleições de 2020 também marcaram outros grandes feitos para a população LGBT. Entre tantos exemplos, Delaware elegeu a primeira mulher trans como senadora (para o estado). O estado de Tennessee que até esta eleição fazia parte de um grupo de apenas 5 estados que ainda não tinham representação LGBT na política, elegeu dois deputados LGBT. E Nova York também elegeu dois homens negros e gays para a legislatura estadual.

* João Nemi Neto é professor de português na Columbia University em Nova York desde 2012. Sua pesquisa lida com questões ligadas ao movimento LGBTQ, estigma e diversidade. Ele escreve sobre cinema queer no Brasil e representações LGBTQ na telenovela brasileira. Ele já publicou sobre Herbert Daniel e o estigma da AIDS Ele também escreve sobre sobre Pedagogia e teoria queer com foco em sexualidade e gênero. Seus artigos já saíram nas Revistas Foreign Policies, Intellectus entre outras. Seu próximo livro, “Anthropophagic Queer: Contemporary Brazilian Cinema”, sai em 2021 pela Wayne State University Press nos Estados Unidos. Como poeta e escritor, ele já fez parte da coletânea Tente Entender o que tento dizer. Poesia: HIV/ AIDS organizado pelo poeta Ramon Nunes Melo (Bazar do Tempo, 2018). Ele também colaborou com um coletivo de escritores latino-americanos para o livro The US without us (Sangría Editores, 2016). Seu último livro Corpo(s) (2017) foi publicado pela Editora Giostri em São Paulo.

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