Por José Araújo Lima Filho
Tivemos mais um ano atípico em 2010, por conta das eleições para os cargos dos poderes executivo e legislativo. Os partidos políticos e agremiações, sim, grande parte dos partidos no Brasil equivale a agremiações de time de várzea, onde as famílias e os amigos do “rei” decidem a melhor negociata.
Eleitos os deputados e senadores, restaram para a fase final as eleições de alguns Estados que tiveram segundo turno e a presidência do país, e ai o país tremeu. Dossiês falsos e/ou verdadeiros surgiram do dia para noite, a internet mostrou a sua função como ferramenta de discussão, e os candidatos viram-se reféns dessa temperatura/discussão virtual.
Os finalistas, visando conseguir mais votos, assinaram todos os manifestos que eram apresentados, se defendendo, sendo contra o aborto, da parceria civil… E o Brasil passou a ser o paraíso dos conservadores e retrógrados.
Na questão da aids, o estrago não foi diferente. De um lado, o candidato que tinha o chavão de ter “criado a melhor Programa de aids no mundo” (e o pior que muitos acreditaram, afinal não viveram a verdadeira luta pelo acesso a medicamento de forma universal) pousar com parte do movimento frente às câmeras foi quase o “selo da verdade”. Triste erro que se prolongou nos debates políticos nas TVs.
A candidata adversária em NENHUM momento citou a palavra AIDS. Sentia que o discurso já tinha dono, só se esqueceu de acreditar ou mencionar que o movimento social foi a verdadeira razão de tal avanço. Uma pena que as lembranças de muitos sejam curtas.
As eleições acabaram. Partidos revendo seu processo de avanços ou retrocessos e até os papagaios de piratas voltaram para o seu anonimato. E agora “Jose”?
Chegou a hora de trabalhar, e na área de saúde temos muito o que fazer com ou sem um novo imposto.
O que falta no nosso Brasil é incorporar o sonho de um SUS (Sistema Único de Saúde) concretizado para todos os brasileiros, cujas distâncias e as diferenças regionais deixem de ser obstáculos para o supremo direito à saúde.
Para quem está inserido no movimento social, a falta de verba é um fator indiscutível e também se faz necessário levantar mais esta questão no que se refere aos governantes, sejam eles municipais e/ou estaduais que fogem da responsabilidade de concretizar o SUS para não perder seu discurso eleitoral e ficar desempregado em novos mandatos.
Em janeiro, o país terá os novos mandatários, assumindo seus postos para fazer valer os compromissos de campanha.
Apesar de ter assumido há cerca de três meses o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, o professor Dirceu Grego poderá realmente mostrar a que veio e que muito há de ser feito. Os superiores devem cobrar e permitir que o Departamento tenha também um novo sopro na política de saúde deste país. É preciso acordar o “Templo de Cristal”, e tornar o Departamento com ideias modernas, mostrar novas ações e planejamento para um futuro de médio e longo prazo. Faz-se necessário não esquecer o passado e não viver no marasmo da história. É preciso renovar e ter a coragem de ir a fundo, mesmo que para isso cabeças rolem.
Nessa recente semana de luta contra aids, devemos acreditar que a renovação aconteceu, e o nosso papel agora é cobrar por uma política municipal menos selvagem que fragmenta ao poder o poder para atender os caciques regionais.
Nos Estados, mais do que os discursos de apoio ou oposição de governo, precisam-se de política públicas, sem siglas inovadoras que chegam com cada candidato eleito, criando a farsa de uma nova política de saúde “salvadora”.
Da nova presidenta, espera-se que ela não assuma o papel de mãe dos brasileiros, mas que consiga apresentar uma política séria, pois, mais de que fazer o discurso de continuidade, que seja responsável em salvar a política de saúde do Brasil.
Para isso, é de suma importância que os novos governantes deixem de lado o marketing interno e que, externamente, acredite que é possível mudar (para alguns avançar).
José Araújo Lima Filho é coordenador da organização Espaço de Prevenção e Assistência Humanizada
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