AS CRIANÇAS E SEUS DIAS – Elizabete Franco Cruz é psicóloga, doutora em educação pela Unicamp, professora universitária, pesquisadora, ativista do GIV

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Elizabete Franco Cruz

Dia 12 de outubro, além de ser o dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, é o dia em que se convencionou comemorar o Dia da Criança. Nesta data a maioria das pessoas pensa em dar presentes para as crianças. Filhos, sobrinhos, amigos e crianças institucionalizadas ganham presentes e tem festinhas especiais. Importantes momentos de alegria. Mas por que precisamos ter um dia da criança? Todo dia não é dia da criança? Essas datas comemorativas como o dia da mulher, do índio, entre outras, são repletas de ambigüidades e precisam ser agendadas como especiais porque estas populações vivem condições de desrespeito de direitos, discriminação e preconceito.

Então, por entre balas, festinhas e presentes, seria bom uma pausa para reflexão. Como anda a situação da infância no Brasil? Uma rápida olhadela e já visualizamos as dificuldades: falta de escola, situação de rua, trabalho precoce, exploração sexual, violência física, discriminação étnica/racial…

E se a situação da infância no geral é difícil não seria diferente com as crianças vivendo com HIV/Aids. Muitas ainda enfrentam preconceitos nas escolas, nas famílias e comunidades. Praticamente inexistem pesquisas sobre lipodistrofia infantil e as crianças como os adultos sofrem com este efeito colateral vindo dos medicamentos.

E temos um grande número de crianças que são familiares de portadores(as) do HIV e que por não serem infectadas muitas vezes são deixadas em segundo plano, mas também sentem os impactos da Aids em sua vida (como a perda dos pais – ou o medo da perda-, e a constante preocupação com seu tratamento).

A maioria das pessoas tem dó das crianças com Aids e das crianças órfãs. Sempre olham com pena, colocando-as no lugar de “pobres vítimas da epidemia”. Sem dúvida são grandes os desafios e as adversidades existentes na vida destas crianças. Porém, quando vamos aprender que as crianças precisam de nosso respeito e não de nossa piedade? Esta vitimização contribui para que as crianças portadores de HIV ou aquelas que perderam seus pais em decorrência da Aids sejam colocadas no lugar de objeto da caridade, da generosidade e da bondade dos adultos. Diz o dito popular “respeito é bom e eu gosto”. Criança também gosta, sabia?

O que há para fazer? Podíamos, por exemplo, diminuir nosso adultocentrismo e começar a tomar a perspectiva das crianças em cada pequena resolução do cotidiano. Ao invés de olharmos “tudo” com nossos “olhos adultos” poderíamos ter um pouco mais de escuta em relação às crianças. Também poderíamos pleitear que a “criança prioridade” tão presente nos discursos políticos a cada eleição fosse efetivada.

Em síntese o que estou sinalizando é que as crianças portadoras de HIV/Aids e filhas de portadores de HIV/Aids precisam ser tomadas como sujeitos de direitos. Por isso, aguardamos ansiosamente que a Coordenação Nacional de DST/Aids desenvolva e implante política pública (que está em estudo) para a população infanto-juvenil e seus familiares.

No entanto, todas estas mudanças, desde as macro estruturais como a política, até aquelas que se dão no micro-cotidiano das relações adulto-criança demandam o exercício de desconstruirmos nossos discursos pré estabelecidos, que universalizam nosso conceito de infância, tomando esta etapa da vida como incompetente e “menor”. E precisamos também reconhecer que esta população existe, é também afetada pela epidemia e como outros tantos grupos merece atenção e cuidado. E que há que se debater que atenção e cuidados são estes.

Às vezes penso que isso tudo está muito difícil de alcançar, porque a maioria de nós, adultos, está acostumada e acomodada com o poder que ser adulto nos dá. Só restaria pedir ajuda a Nossa Senhora Aparecida? Quem sabe ela não ajuda as crianças, dando um pouco mais de lucidez aos adultos que governam o mundo em que as crianças vivem? Ou será que o “milagre” é tamanho que nem Nossa Senhora vai dar conta? De todo modo acredito bastante no “milagre” da ação humana e proponho que façamos pelo menos um pouco da nossa parte e continuemos nos organizando em grupos, fazendo encontros, estudos, propondo políticas, criando espaços para que crianças e jovens vivendo e convivendo possam falar e serem ouvidos. Não é muito, mas pequenos espaços, e pequenas mudanças fazem revoluções. Da próxima vez que você olhar para uma criança pergunte-se o quanto a respeita. Indague-se o quanto a escuta. Observe se você olha mais para os seus limites do que para suas possibilidades.

Gostamos muito do sorriso que as crianças nos dão quando ganham um presente no dia da criança. Talvez este sorriso pudesse brilhar com mais freqüência e ser o presente que os adultos receberiam cotidianamente se, respeitosamente, reconhecessem as crianças e seus dias. Todos os dias.

Elizabete Franco Cruz é psicóloga, doutora em educação pela Unicamp, professora universitária, pesquisadora, ativista do GIV (Grupo de Incentivo à Vida) e do GEISH (Grupo de Estudos Interdisciplinares em Sexualidade Humana) – FE/Unicamp.

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