Ao seu Zé e Dona Vicentina. Robinson Fernandes Camargo é infectologista e coordenador do SAE Sapopemba

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Robinson Camargo

Entra ano sai ano e as coisas permanecem as mesmas, natal, ano-novo, carnaval, páscoa e o mês de falta de medicamento de Aids, o discurso também não muda – dificuldades na aquisição de medimentos… a guerra do Iraque (na falta da imunoglobulina)…o tsunami… apenas 3,5 mil pessoas… até o fim do mês… ainda não há falta é apenas um desabastecimento temporário… a Anvisa (prima ingrata e invejosa) que solicita documentos que o laboratório não tem… e tudo isto dito no pior estilo de Odorico Paraguaçu (ele era muito melhor).

Por vezes chego a pensar que desculpas assim são pura gozação, deve ser o senso de humor do planalto central, pois o melhor do mundo não cometeria erros tão grosseiros como o de deixar pessoas sem remédios, quando alardeamos para os quatro cantos que todos têm acesso a medicação e tratamento (dependendo do mês). E esses médicos chatos de plantão, pegando no pé dos planaltinos, denunciando a falta de remédio, quando não havia falta,mas, dificuldades de aquisição, e até o fim do mês chega, se vira, deixe de ser tão ansioso, querem tudo para ontem. Paciente também foi muito mal acostumado, alem de comer três vezes ao dia não pode ficar alguns dias sem tomar remédio, parece coisa de viciado, ficam na fissura da droguinha que poderá dar alguns anos a mais de vida, vê se pode. Ninguém pensa em dar um descanso, umas férias ao coitado do HIV, pra que tanto coquetel ?

Isso os indigestos não vêem, né?

Daqui a pouco vão querer que se aplique multa no laboratório, que ele entregue a documentação de uma só vez, que arque com os prejuízos que esta falta poderá acarretar, se começarmos assim poderemos perder a sustentabilidade do programa, do que adianta quebrar patentes, se tratarmos a industria indiana como a americana, isto sim é um absurdo. “Isso só pode ser coisa desses cachacistas juramentados”.
“Botando de lado os entretantos e partindo pros finalmentes” tanta irresponsabilidade não pode ser obra do acaso, são anos de treinamento. Profissionalismo é isso ai.

Pensei em escrever sobre o pavor do doente em ficar sem o remédio, da angustia dos médicos em manter um tratamento adequado,dos pais e mães vendo seus filhos correrem riscos absurdos, mas parece que isso é piegas, diria mesmo démodé, nesses tempos um tanto bicudos.

Evoé, Betinho.

Dr. Robinson Fernandes Camargo é infectologista e coordenador do SAE Sapopemba

Apoios