ALGUNS BICHOS SÃO MAIS IGUAIS QUE OUTROS – Beto Volpe é membro da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV

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Beto Volpe, baseado na obra ‘A Revolução dos Bichos’ de George Orwell

“Lembro-vos também de que na luta contra o Homem não devemos ser como ele. Mesmo quando o tenhais derrotado, evitai-lhe os vícios. Animal nenhum deve morar em casas, nem dormir em camas, nem usar roupas, nem beber álcool, nem fumar, nem tocar em dinheiro, nem comerciar. Todos os hábitos do Homem são maus. E, principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos os animais são iguais.”
George Orwell, 1945

Havia uma granja. A Granja Brasillis. Nela os bichos viviam em tranqüilidade, num clima abençoado por Deus e muito bonito por natureza. Cada bicho sabia seu lugar, determinado por suas características. Todos diferentes. Mas felizes e irmãos, todos tinham alimento, abrigo, amigos. Havia festas do alvorecer ao crepúsculo. Enfim, nessa diversidade os bichos viviam, até…

Até que uma estranha doença começou a abater alguns de seus mais famosos e renomados moradores e a causar medo e dor entre eles, que viam, horrorizados, os seus ídolos definharem publicamente. O enorme porco detentor de premiações em exposições, o galo cantor que encantava as manhãs. Enfim, a doença parecia ter preferência por animais que se destacavam. Todos os demais tinham horror a contrai-la e se afastavam dos bichos enfermos. Havia quem dissesse que a transmissão poderia acontecer pelo simples compartilhar de poleiro. O fato é que, com o passar do tempo, a doença se espalhara entre os mais humildes, jovens e mais velhos.

E a estranha epidemia assolava não só aquela, mas todas as granjas. Os proprietários perceberam que teriam de reunir fundos e traçar metas para enfrentar o problema que ameaçava seus investimentos. O mundo se comoveu com a dramática situação dos bichos e realizaram conferências mundiais. Ao mesmo tempo, surgiram grupos para apoiar os bichos que viviam com o problema: as Organizações para a Normalização das Granjas: ONGs. No entanto…

No entanto a epidemia só avançava. E os já acometidos pelo problema perceberam que governos e ONGs não estavam dando conta do desafio. E a única alternativa seria eles assumirem sua parte nessa luta. Os porcos, líderes natos, organizaram reuniões cada vez mais entusiasmadas, com as ovelhas balindo repetidamente palavras de ordem. Os cavalos e as galinhas incentivando uns aos outros, bois e vacas engrossando as fileiras e os burros… Esses estavam preocupados, acreditavam que o trabalho das ONGs já era suficiente e que deveriam cuidar mais da própria saúde.

Enfim, num dia de muito júbilo, fundaram a Rede Nacional de Bichos Vivendo com o Problema Mais Sério, a RNB+. E escreveram na parede central da granja a síntese de sua carta: “Todos os Bichos São Iguais”. E festejaram a conquista, entoando palavras de ordem como “Queremos a cura, já!” Sim, houve um avanço científico. A ciência havia descoberto um coquetel que impedia o desenvolvimento da doença e que era distribuído pelos governantes.

E, num equívoco de general de primeira guerra, alguns setores declararam que o problema havia se tornado crônico e estava sob controle. Porém, cada vez mais animais sucumbiam e as economias se ressentiam com o impacto.

Foi quando alguns bichos perceberam que algumas organizações estavam mais interessadas em avanços pessoais, profissionais e acadêmicos do que nas metas adotadas, quando não pelo dinheiro que corria solto para financiar ações. Alguns dos que tinham se destacado na luta contra as desigualdades, se desligaram da Rede, indo para ONGs e mesmo para o governo. Muitos deles seguindo sérios ideais Outros, infelizmente, seduzidos por vantagens financeiras, poder ou puro brilho.

O coquetel, que havia provado sua eficácia e enriquecido seus produtores, também tinha efeitos colaterais. Bovinos mal conseguiam andar tamanho o crescimento de seus úberes e cupins. Cavalos com seus cascos necrosados, até mesmo o garanhão não desempenhando, como antigamente, seu papel. E o crescente número de casos de cânceres em penas, cloacas, chifres e rabos.

A RNB+ se deparava com novo desafio: sua própria diversidade. Porcos, cavalos, ovelhas, vacas, burros, galinhas, jovens e velhos, machos e fêmeas, alguns acometidos pela doença, outros apenas portando o mal que a causava, muitos carregando sequelas de suas manifestações. Existiam, ainda, os corvos, que apareciam só em encontros e eleições.

Era necessário equacionar tantas diferenças, criar um guia de comportamentos, um código de ética. Outra necessidade era a aproximação dos bichos, devido às enormes distâncias. A tecnologia da interpet poderia fazer essa aproximação. Entretanto, os burros foram os primeiros a se opor, alegando que os bichos não eram da polícia para controlar uns aos outros.

Com o crescente reconhecimento da importância das RNB+, elas obtinham financiamentos de vulto. Até que começaram a estourar pequenos escândalos em granjas distantes por irregularidades na utilização de recursos. Os porcos, agora confirmados nas lideranças do movimento, fizeram vistas grossas, afirmando que eram casos pontuais e a Justiça daria conta do assunto. As ovelhas baliam sem cessar: ‘Quebra de Patentes, Jáááá!’. E, alheios às ameaças externas, os bichos começaram a verificar outro fenômeno entre eles: reparavam mais nas diferenças do que nas afinidades que outrora os unira.

Até que um dia, na propriedade mais rica da Granja Brasillis, a RNB+ decidiu que seria mais fácil administrar a luta se eles também se tornassem uma Organização para a Normalização das Granjas, uma ONG. Só que havia dois problemas: seus cargos de representação não davam direito a decisões, apenas intermediações e operacionalizações. E a Carta dos Bichos dizia claramente que “todos os bichos são iguais”, ou seja, as decisões deveriam ser apreciadas por todos. E, como os próprios burros e porcos haviam boicotado as consultas via interpet, estava estabelecido o impasse. Foi assim que, no dia seguinte, o principal artigo da Carta dos Bichos aparecera alterado na parede l da granja: “Todos os bichos são iguais. Mas alguns são mais iguais que outros”.

A partir daquele dia, os ideais de igualdade haviam se partido. Entretanto, a maioria dos bichos sequer se questionou. Outros acharam mais cômodo se omitir, sendo que alguns líderes de outras granjas parabenizaram a iniciativa como inovadora e necessária. Até mesmo o representante dos bichos no Conselho Nacional das Granjas cobriu os ‘companheiros’ de elogios.

Já fazia tempo que alguns bichos começaram a se afastar das atividades da RNB+ e, ao olhar com um pouco de distanciamento, os próprios bichos já não conseguiam distinguir os “Bichos que Vivem com o Problema” do próprio Problema. Haviam perdido o olhar crítico e passaram a aceitar conveniências como expressões da verdade. Passaram a aceitar mudanças na história passada para justificar uma nova leitura do presente. E, assim, construir um futuro baseado nos ideais que a RNB+ nascera para enfrentar.

Pobres bichos, não atentaram que haviam se tornado, eles próprios, parte do problema.

Beto Volpe, pessoa com a qual o HIV vive há 20 anos preside o Grupo Hipupiara em São Vicente/SP e é membro da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV. Contatos: betovolpe_rnp@yahoo.com.br

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