Por Américo Nunes Neto
É comum atribuir nomes a coisas que temos algum carinho, assim acontece com a cidade de São Paulo (Sampa).
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Parabéns Sampa, Sampa minha, sua e de Caetano em versos e prosas. Há 428 anos, ainda não havia uma Rita Lee e aids. A tua mais completa tradução em seu aniversário de 458 anos, três décadas incomoda e alguma coisa acontece no meu coração; que ama esta maior metrópole da América Latina com todas suas mazelas, desafios e conquistas. Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João me dou conta do quanto ela é bela, acolhedora, mística com uma diversidade de população e concentração de renda no Jardins; o centro velho, continua cada vez mais velho com projeto de reurbanização esquecido e agora se depara em dissipar a cracolândia para outras áreas de atenção e ruas. Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu descaso; chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto. Afasto o que não conheço e quem vende outro sonho feliz de cidade. Aprende depressa a chamar-te de realidade, que é paliativa sem uso de planejamento adequado de médio e longo prazo que envolva vários seguimentos de governo e sociedade civil; porque és o avesso do avesso do avesso do avesso.
O povo que vive com HIV e aids nas filas, nas vilas, favelas, na esperança do acesso ao tratamento multidisciplinar, medicamentos, mercado de trabalho, ao basta na violação dos Direitos Humanos. Pan-Américas de Áfricas utópicas, cidade do samba que no carnaval e na parada LGBT que haja fornecimento de camisinha ordenada com pessoas preparadas para evitar o desperdício do dinheiro público. Que ações preventivas em DST/HIV sejam contínuas e dialogadas independentes de datas de eventos de calendário público. Alguma coisa acontece no meu coração com vulnerabilidade da prevenção em jovens, inclusive gays, com baixo nível de escolaridade. A distribuição de preservativos cresce chegando a 330 milhões no Brasil, mas ecoa a necessidade de novas estratégias preventivas integradas. Os Programas de Aids com a Sociedade Civil Organizada têm desenvolvido e fortalecido diversas ações para que a prevenção e assistência atendam as necessidades das pessoas que vivem e convivem com HIV e aids.
Mais possível novo quilombo de Zumbi pode ser um motivador de ações integradas e novos baianos podem curtir numa boa com camisinha. Alguma coisa acontece no meu coração, quando as pessoas morrem de aids; alguma coisa acontece no meu coração, quando falta medicação; alguma coisa acontece no meu coração, quando as pessoas que vivem com HIV e aids sofrem preconceito, estigma e discriminação; alguma coisa acontece no meu coração, quando alguém tem o diagnóstico de aids e câncer.
A Pauliceia aniversariante se aproxima dos seus cinco centenários e continua com índice crescente em HIV ocupando um ranking de destaque na epidemia de aids no País. Alguma coisa acontece no meu coração, quando escuto que a cura da aids está longe, portanto prevenção é o melhor remédio. Alguma coisa acontece no meu coração, quando participantes e delegados do ENONG (Encontro Nacional de Organizações Não Governamentais que atual na luta contra a aids) se desrespeitam por uma representação, esquecendo que nosso oponente é o HIV. Alguma coisa acontece no meu coração quando as ONGs reduzem sua jornada de trabalho e algumas fecham as portas por falta de recursos financeiros.
Dia após dia, a saúde pública e privada se tornam uma área complexa e dinâmica, os desafios se acumulam. Basta um olhar ao longo desses anos desde a reforma sanitária e a descentralização da política de aids; podem-se constatar os avanços, muito embora haja muito caminho a se percorrer para o aprimoramento dos Programas de Aids e Sistema Único de Saúde (SUS) e Controle Social.
Alguma coisa acontece no meu coração, quando a Presidenta do País nos decepciona com a sanção que provem aumento de recursos financeiros para a área da saúde. A ampliação da prevenção, assistência, a regionalização da saúde e a humanização do atendimento são metas a serem cumpridas, tornando o SUS paulista e Programas de Aids mais ágeis, acolhedores e capazes de dar respostas cada vez mais eficientes e eficazes às demandas do Controle Social.
Então, contudo, alguma coisa acontece no seu coração?
Américo Nunes Neto é Representante do Movimento Paulistano de Luta Contra a AIDS (MOPAIDS), fundador do Instituto Vida Nova Integração Social Educação e Cidadania e membro da Rede Nacional de Pessoas Vivendo Com HIV e Aids
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