ÁLCOOL E VULNERABILIDADE JUVENIL HOJE – Regina Figueiredo é antropóloga e coordenadora da Rede Contracepção de Emergência

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Regina Figueiredo

O Instituto Cultural Barong, desde 1996, desenvolve ações de prevenção à Aids e promoção do uso de preservativos. Essa iniciativa visa o exercício dos Direitos Sexuais e Reprodutivos da população brasileira, principalmente de adolescentes e jovens − um dos maiores focos de infecção por DST.

Em 2002, integrou nas ações para a redução da exposição ao sexo desprotegido, a problemática do consumo do álcool. Passou a realizar estudos sobre consumo de bebidas e uso de preservativos em situação de lazer jovem, nas praias de Maresias − litoral de São Paulo, e no Festival de Inverno de Campos do Jordão.

Em 2006, fez parceria com a REDE CE – Rede Brasileira de Promoção de Informações e Disponibilização da Contracepção de Emergência, que atua com este contraceptivo, mas que também realiza pesquisas e intervenções para a redução de gestações não-planejadas entre adolescentes e jovens. Assim, realizou-se a primeira pesquisa sobre o consumo de álcool durante o carnaval, no Guarujá – SP em 2006.

A pesquisa demonstrou que neste evento de festa-lazer há um consumo maior de álcool que facilita contatos afetivos e sexuais. As relações sexuais sob este consumo ocorreram com menor uso de preservativos e de métodos contraceptivos, portanto, com maior prática de relações sexuais de risco. Dos consumidores de bebidas, 63,4% fizeram sexo, comparado com 46,6% dos que não consumidores. Entre os consumidores, o uso de preservativos foi de 37%; entre quem não consumiu foi bem superior, de 63%.

Esses dados foram fundamentais para o desenvolvimento do atual projeto “Um Brinde à Saúde”. Este, por meio da promoção da discussão sobre o consumo de álcool e suas conseqüências, visa a criação de um concurso de peças publicitárias educativas, buscando motivar a reflexão sobre esta temática e o consumo responsável.

Os riscos do consumo abusivo de bebidas alcoólicas envolvem várias temáticas: os males para a saúde física e mental; a facilitação da violência doméstica e de rua, incluindo acidentes de trânsito; a influência da mídia, criando modelos de conduta no incentivo de uso precoce; a discussão das regulamentações de propagandas e do envolvimento de artistas na publicidade; a discussão sobre a reprodução de visões sobre a mulher, explorada como objeto de desejo e consumo pela publicidade. Tais temas são fundamentais para a área de Saúde Sexual e Reprodutiva, discutindo suas vulnerabilidades. São fatores que riscos adicionais ao risco individual.

O consumo de bebidas alcoólicas está muito ligado à imagem cultural brasileira de lazer e festividade, características de nossa população. Ocorre em ambientes privados, mas, principalmente, em ambientes públicos: bares, danceteria, etc. Esses locais sugerem o encontro com amigos, a paquera, a atualização do “que está acontecendo”, a pausa para o relaxamento das atividades obrigatórias de estudo ou trabalho do dia-a-dia. Não à toa, várias empresas vêm procurando veicular nesses estabelecimentos suas mensagens, utilizando cartões, peças de mesa, etc.

O prêmio “Um Brinde à Saúde” estimula estudantes a criar porta-copos, porta-cervejas, jogos de mesa divulgando mensagens educativas que remetam ao próprio consumo de álcool, visando o consumo responsável. O interesse do Barong/REDE CE é incorporar a redução do sexo sem proteção, visando reproduzir e distribuir essas peças em estabelecimentos comerciais. Acreditamos que a iniciativa irá favorecer a promoção à saúde da população jovem e, sobretudo, mostrar a importância da abordagem da temática álcool de forma inter-setorial para quem atua com a Saúde Sexual e Reprodutiva e políticas de DST/Aids.

Regina Figueiredo é antropóloga e coordenadora da Rede Contracepção de Emergência

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