Aids: Pauperização e invisibilidade – Cláudio Celso Monteiro Jr. é bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo.

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Por Cláudio Monteiro

Como testemunha ocular da invasão do Brasil pela pandemia de aids nos anos 80, costumo dizer que o vírus veio a nós de avião (talvez, no então em operação, Concorde), desembarcando sobre tapetes vermelhos e sob holofotes.

Sandra Brea, Darcy Penteado, Marquito, Ney Galvão, Renato Russo, Lauro Corona são apenas alguns dos nomes globais e Vips de uma longa lista de personalidades que tornaram públicas suas condições de portadores de aids, lista esta que talvez tenha em Cazuza “a sua mais completa tradução”. Azar da aids.

Uma doença totalmente desconhecida, descontrolada, com perspectivas epidemiológicas imprevisíveis, fatal, letal, da qual nada se sabia, atacava implacavelmente, entre outros, indivíduos formadores de opinião pública, muitos dos quais com um histórico pessoal recente de militância política, como o cartunista Henfil e seus irmãos. Tal fato veio a ser decisivo quanto à rapidez das respostas institucionais de enfrentamento a aids, tanto a nível governamental como da sociedade civil.

Vivia-se a consolidação da queda da ditadura que teve como marco fulcral a mega mobilização nacional pelas Diretas Já em 1984. E neste cenário o Sistema Único de Saúde, como a terra prometida após o longo percurso do movimento sanitarista, começava a materializar-se no horizonte. Azar da aids, novamente.

Uma doença nova começou a ser combatida dentro de uma nova lógica organizacional das políticas públicas em saúde, na qual a corresponsabilidade social e a incidência da sociedade civil são pedras angulares.

Todos esses fatores conferiram à epidemia de aids, no Brasil e no mundo, uma visibilidade midiática continuamente inédita na História Social das Doenças. Durante anos a fio raros os dias em que o tema não ocupava algum espaço na imprensa, seja na perspectiva científica, seja em suas derivações sociais.

Mas, conforme escreve Érico Veríssimo nas páginas finais de Incidente em Antares: “como costuma acontecer tanto na vida como nos romances, passaram-se os anos. E muitas mudanças se operam em Antares e no resto do universo”.

E naturalmente a epidemia de aids no Brasil integra este resto do universo verissimiano.

Neste particular, as mudanças operadas foram radicais. De um caso de aids em 1981, pulamos para mais de 700 mil portadores do HIV em 2009, conforme estima o Ministério da Saúde. E, de doença de globais e Vips, temos agora uma epidemia definida enquanto “elevada em altos patamares”, com 35.000 casos novos e 11.000 óbitos a cada ano, e que cada vez mais se configura enquanto “doença de pobre”.
Sorte da aids.

Já há alguns anos, é comum, quando tocamos no tema aids, ouvir-se reações como: “Aids, mas ainda existe ?”, ou “Aids ? Ninguém fala mais nisso…”. Ou seja, 35.000 casos e 11.000 mortes por ano tornam-se invisibilizados pelo fato de aids ser, agora, “doença de pobre”. E os pobres devem ser invisíveis.

Quino ilustra magistralmente o ideal do pobre invisibilizado pela sociedade capitalista no seguinte diálogo entre Mafalda e Suzanita, ao passarem por um mendigo:

Mafalda – Me parte o coração ver os pobres !

Suzanita – A mim também !

Mafalda – É preciso dar casa, trabalho e bem estar aos pobres !

Suzanita – Por que tudo isto ? Bastava escondê-los !

Ao longo da história, a “invisibilização” dos pobres e suas mazelas, como a lepra e outras doenças, vem se dado de diferentes formas: desde aniquilamento ou confinamento, ao banimento para um círculo de constrictos, configurados tipicamente com aqueles que devem estar de fora dos muros da cidade, ou sub urbos, vindo a ser, na melhor das hipóteses, cidadãos de segunda categoria.

Daí, a invisibilização da epidemia de aids. Sua estrondosa proliferação a rotinizou. Sua pauperização a invisibilizou. Sua interiorização a suburbanizou.

Vips e globais vitimados pela aids, por mais que a lista seja longa, foram poucos frente a 700.000 pessoas vivendo com HIV/aids no Brasil;
Vips e globais por sua própria condição são visíveis e ouvíveis;
Vips e globais, no terceiro milênio, não mais se vêem premidos a revelar publicamente seus sorodiagnósticos;

Vips e globais atualmente emprestam seus nomes a ONGs e Serviços de Atendimento em HIV/aids, nos quais todos os dias, vários joões, josés e marias têm seu sorodiagnóstico realizado e continuam tão pobres, anônimos e invisíveis quanto antes.

E quantos joões, josés e marias sequer têm condições de avaliar as situações de vulnerabilidades pelas quais perpassam, e constituem os 60 % de diagnósticos tardios para o HIV, registrados anualmente?
E quantos onze mil mais joões, josés e marias serão precisos morrer a cada ano no Brasil, para que a epidemia volte a ser visível?

Se no Brasil a estimativa de pessoas vivendo com HIV/aids é da ordem de 700 mil pessoas, na África Subsahariana esta estimativa é de 28 milhões. E neste sentido, não podemos deixar de considerar a agudização da invisibilização da epidemia de HIV na África produzida pelo “envipecimento branco” da aids nos anos 80. E ampliando-se o foco da pobreza, temos não apenas a suburbanização global de um continente, para as margens da economia mundial, mas a cotidianização de um holocausto epidêmico que insistimos em invisibilizar.

Cláudio Celso Monteiro Jr. É bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Mestre em Infectologia em Saúde Pública pelo Instituto Emílio Ribas, atua no enfrentamento à epidemia de aids desde 1985, sendo membro da Pastoral da Aids, da CNBB.

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