AIDS NA ÁFRICA – Francisco Luz é diplomata, trabalhando atualmente na Embaixada do Brasil em Maputo

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Francisco Luz

Há pouco mais de cinco anos, venho trabalhando como encarregado de cooperação em saúde, primeiro na Embaixada do Brasil em Pretória (África do Sul) e agora em Maputo (Moçambique). Nesse período, não se passou um dia sequer, em que a Aids não tenha sido presença constante nos jornais, na televisão, no trabalho ou mesmo na conversa com os amigos. São incontáveis as histórias de famílias inteiras dizimadas pela doença ou de um exército assombroso de órfãos em gestação. É impossível ficar indiferente ou passivo diante dessa tragédia humana sem precedentes.

Os números da pandemia na África Subsaariana são impressionantes: das mais de 40 milhões de pessoas infectadas pelo HIV em todo o mundo, cerca de 25,8 milhões (64%) vivem naquele Continente, apesar de ali habitarem apenas 11% da população mundial; desse total, 13,5 milhões são mulheres e 1,9 milhões, crianças (respectivamente 77 e 82% da cifra mundial); o número anual de mortos por causa da aids alcança 2,4 milhões (77% das mortes em todo o mundo); e estima-se em 12,4 milhões o número de órfãos (mais de 80% do total mundial).

A crise causada pela Aids, especialmente no sul do Continente, sua região mais rica e com os maiores níveis de prevalência da doença no mundo, tornou-se um dos grandes obstáculos ao desenvolvimento sócio-econômico africano. Representa, ainda, ameaça potencial à segurança e à estabilidade regionais e um dos principais óbices ao cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, acordados pelos Chefes de Estado e de Governo reunidos em Nova York em 2000 para serem atingidos em 2015, por parte daqueles países.

Os níveis de pobreza e as desigualdades de renda, já bastante elevados na região, tendem a acentuar-se ainda mais por causa da pandemia. Cria-se um círculo vicioso em que a doença reforça a pobreza que, por sua vez, facilita a disseminação do vírus. Além disso, a Aids vem revertendo os ganhos de desenvolvimento arduamente obtidos naqueles países. A expectativa de vida ao nascer e os índices de desenvolvimento humano em geral já retrocederam, nos países mais afetados, a níveis pré-independência. Em alguns países, essa expectativa de vida não passa de 35 anos, comparável à de países imersos em situações de conflito.

Como o impacto da Aids é sentido a longo prazo, várias instituições têm-se preocupado em elaborar e discutir cenários para a evolução da pandemia em todo o mundo. O mais abrangente estudo dessa natureza na África foi coordenado pelo UNAIDS e apresenta três cenários para o desenvolvimento da doença no Continente (África Austral, Central e Ocidental, Oriental e do Norte) até 2025(*). Esses cenários dão a entender que, mesmo que todos os esforços globais sejam bem-sucedidos, a epidemia continuará a ser uma questão relevante no cenário internacional para além de 2025. Contudo, dependendo das ações tomadas agora, seu impacto poderá ser muito menor do que as proporções catastróficas que vêm assumindo no presente.

Em suma, caberia à comunidade internacional evitar o desastre, por meio de uma cooperação que possibilite um trabalho verdadeiramente conjunto para o desenvolvimento da África, com um fluxo sustentado de recursos cada vez mais gerados, geridos e coordenados pelos governos e pelos povos africanos.

(*)“Aids in Africa: Three scenarios for 2025.” Genebra: UNAIDS, 2005, 220p.

Francisco Luz é diplomata, trabalhando atualmente na Embaixada do Brasil em Maputo. E-mail: f.luz@att.net

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