Aids, fatores de risco cardiovascular e estilo de vida – André Luiz Soares é bacharel em Educação Física e Programas de Saúde pela UFRJ

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Por André Luiz Soares

As recomendações de exercícios físicos regulares para as pessoas vivendo com HIV e aids já são consensuais há algum tempo. Pelos indiscutíveis benefícios no combate à lipodistrofia, para a diminuição da gordura corpórea e aumento da massa muscular, as mudanças positivas nos perfis de colesterol e triglicérides, a melhora do equilíbrio hormonal, e uma variedade de efeitos psicossociais desejáveis, os exercícios físicos – quando elaborados de forma criteriosa – representam um eficaz aliado para prevenção e diminuição de cada um desses fatores de risco individualmente.
Desde o seu surgimento, o fenômeno epidêmico da aids possui uma complexidade e um dinamismo extremamente desafiadores. A forma como a sociedade elabora sua compreensão, a evolução dos tratamentos clínicos, assim como as questões psicológicas que envolvem o indivíduo ou sua coletividade mais próxima, demandam grande rapidez na compreensão e mobilidade nas ações que envolvem sua temática.

Recentemente vi, na divulgação de duas pesquisas cientificamente bem conduzidas, uma no Rio de Janeiro e outra em São Paulo, a comprovação e a quantificação de uma alarmante tendência já constatada no cotidiano profissional: Do total de pessoas que vivem com HIV e Aids (PVHA), quase a metade está obesa ou com sobrepeso.

“Não parece uma informação tão alarmante assim”, alguns poderiam afirmar. Entretanto, é de se considerar que a obesidade central, potencializada pela lipodistrofia, é mais perigosa do ponto de vista cardiovascular, pois começa de uma forma silenciosa pelo acúmulo de gordura na parte interna do abdômen, para depois ter seu pronunciamento nos contornos corporais.

É também importante considerar que esse quadro está normalmente associado à dislipidemia, e aos efeitos deletérios já conhecidos da infecção e da terapia medicamentosa na camada mais interna dos vasos sanguíneos, o endotélio. Assim, temos o tracejo de uma conjunção de fatores com importante potencial de risco para doenças vasculares e cardíacas.

A partir disso, pesquisadores italianos correlacionaram a evolução da infecção associada à terapia antirretroviral (TARV) a um significativo envelhecimento vascular – ou seja, os vasos sanguíneos apresentarem características de idade muito superior a idade do indivíduo submetido ao estudo. É por isso que a doença aterosclerótica torna-se, a cada dia mais, uma preocupação de todos, inclusive daqueles que possuem maior sucesso com o TARV.

O que fazer, já que a pluralidade de fatores não permite uma solução simplista?

A resposta está em enfrentar esse desafio de maneira igualmente plural. A atenção clínica quanto à saúde cardiovascular deve ser preconizada; a nutrição adequada e saudável não pode ser menosprezada; aspectos subjetivos da existência devem receber atenção devida, como níveis de estresse e depressão; e os exercícios físicos regulares ganham mais uma importante indicação.

As recomendações de exercícios físicos regulares para PVHA já são consensuais há algum tempo. Pelos indiscutíveis benefícios no combate à lipodistrofia, para a diminuição da gordura corpórea e aumento da massa muscular, as mudanças positivas nos perfis de colesterol e triglicérides, a melhora do equilíbrio hormonal, e uma variedade de efeitos psicossociais desejáveis, os exercícios físicos – quando elaborados de forma criteriosa – representam um eficaz aliado para prevenção e diminuição de cada um desses fatores de risco individualmente.

E mais ainda, há uma quebra dos ciclos sinérgicos entre esses agentes. Por exemplo: uma auto-imagem ruim favorece a depressão, e a depressão favorece a inatividade física, que por seu turno, favorece a obesidade, a qual traz consigo complicações metabólicas e de auto-imagem. E assim ocorre com muitos outros fatores, uma vez que todos são intimamente relacionados.

Com o Brasil figurando na categoria de modelo no que tange as políticas públicas adotadas no combate a epidemia, assim como ao tratamento humanitário dado as PVHA, acredito ser imperioso que este importante agente terapêutico passe a integrar o arsenal multidisciplinar das nossas instituições: Exercício físico tecnicamente elaborado para PVHA é mais do que coadjuvante opcional ao tratamento, é uma necessidade!

Pelo principio da individualidade biológica, sabemos que a prescrição dos programas de exercícios deve ser também feita de forma individual. Contudo, já há algumas diretrizes que norteiam essa pratica: Os exercícios aeróbios, como a caminhada, corrida e ciclismo continuam importantes; porém, os resistidos, como a musculação e a ginástica localizada estão com seu papel terapêutico cada vez mais relevante.

O ideal é que se conjugue exercícios de flexibilidade, resistência aeróbica e de força, adaptando-os a condição apresentada por cada indivíduo. A carga viral, contagem de linfócitos, estado nutricional, características psicossociais e perfil de risco cardiovascular são exemplos de fatores que precisam ser criteriosamente acompanhados para maximizar os resultados e minimizar riscos.

Assim sendo, a interatividade de médicos, psicólogos, nutricionistas, profissionais de Educação Física, entre outros, potencializa radicalmente o sucesso no cuidado com os parâmetros de saúde e qualidade de vida das PVHA.

André Luiz de Seixas Soares é bacharel em Educação Física e Programas de Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-graduado em Condicionamento Físico para Grupos Especiais e em Reabilitação Cardíaca

E-mail: andre.suporte@hotmail.com

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