AIDS E ESPERANÇA – Luiz Gustavo Guilhermano – Médico e Professor da Faculdade de Medicina da PUC / RS

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LUIZ GUSTAVO GUILHERMANO

Durante o cerco de Nápolis pelo exército francês no ano de 1495, a medicina identificou pela primeira vez a Sífilis, mas só em 1857 Esmarch e Jessen descobriram que ela atingia o cérebro, causando a paralisia geral progressiva. Quarenta e oito anos depois (1905), Schaudiin descobriu que a sífilis é causada pelo microorganismo Spirochaeta Pallida. No ano seguinte (1906), Wassermann criou uma prova de sangue para detectar essa infecção. Em 1909, Erlich desenvolveu um preparado arsenical, a Arsefenamina, que consegui exterminar os espiroquetas da Sífilis na circulação sangüínea, embora não fosse eficiente contra os espiroquetas que já haviam penetrado no sistema nervoso central. Em 1917, Wagner Jauregg, com algum sucesso introduziu o tratamento com a febre da malária para os portadores da paralisia geral progressiva. Finalmente em 1943, Mahoney passou a empregar a penicilina como tratamento eficaz em todos os estágios da doença. Recentemente em 1981, o serviço de epidemiologia do Center of Disease Control, Atlanta, identificou uma nova doença em guetos de homossexuais, haitianos e drogaditos de Nova York e São Francisco, foi proposto o nome de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS). Em 1983, Sinoussi e Montaigner detectaram a presença de um retrovírus em soropositivos. Esse microorganismo foi identificado já no ano seguinte (1984) por Sarngdharan como o causador da síndrome, tendo sido denominado Human T Lynphotropic Vírus (HTLV-III). Temos aqui um intervalo de três anos, contrastando com aqueles 410 anos que separam a identificação da Sífilis e a descoberta do seu agente causador, o Spirochaeta Pallida. Por convenção, em 1986, o HTLV-III passou a ser chamado de HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana). No ano de 1985, os avanços foram a criação do teste ELISA para detectar anticorpos anti-HIV, isto é, em bem menos tempo do que os 411 anos passados entre a identificação da Sífilis e a reação de Wassermann. No mesmo ano houve o início das experiências com substâncias, como o AZT, capazes de limitar as replicações, compare agora com os 414 anos passados desde o achado da Sífilis até o uso da Arsfenamina. A descoberta da afecção do cérebro pelo HIV causando o complexo de demência da AIDS deu-se em 1987, apenas seis anos depois da identificação da patologia, enquanto que entre descoberta da Sífilis e o estabelecimento da sua relação com a paralisia geral progressiva houve um lapso de 362 anos. Em 1993, iniciaram-se as experiências com protótipos de vacinas contra o HIV. Início de 1995: ainda que sensacionalistas e prematuras, passam a surgir notícias sobre novas terapêuticas sugerindo a cura a AIDS.
Verificamos que os períodos de tempo entre os progressos médicos na direção da cura da Sífilis e entre os já obtidos na direção da cura da AIDS mostram que a “história se repete”, porém em intervalos espantosamente mais curtos entre os marcos do avanço científico. Se isso é motivo para esperança entre as pessoas infectadas, ajudando-as na luta contra o agravamento da doença, devido à possibilidade de alcançarem a cura, não é razão para euforia entre os que deverão manter os cuidados de prevenção.

Publicado no Jornal ZERO HORA, Porto Alegre, Domingo, 30 de julho de 1995, editoria de Opinião, página 29. Luiz Gustavo Guilhermano é Médico e Professor da Faculdade de Medicina da PUC/RS

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