AIDS 2026 reúne avanços contra o HIV, mas expõe desafios de acesso e financiamento

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“Repensar, reconstruir e se erguer” coletivamente por uma resposta forte ao HIV foi a convocação feita pela IAS durante a AIDS 2026. Com 7.500 participantes, oito pré-conferências e 48 conferências, o encontro apresentou avanços científicos capazes de ampliar as possibilidades de prevenção e tratamento. Ao mesmo tempo, mostrou que transformar essas descobertas em respostas concretas depende de financiamento, preços acessíveis e políticas que permitam sua chegada à população.

Um dos principais avanços discutidos foi o cabotegravir injetável para PrEP, administrado a cada dois meses. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o pedido de inclusão da tecnologia avançou de forma positiva, e sua oferta no Sistema Único de Saúde deve ser avaliada ainda em 2026.

Produzido pela GSK, o medicamento está registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2023. Para que possa ser incorporado à rede pública, no entanto, o governo brasileiro ainda negocia um preço que viabilize sua compra em larga escala.

O desafio do acesso também esteve presente nas discussões sobre o lenacapavir, injetável semestral para PrEP. A Gilead Sciences rejeitou a proposta inicial do governo brasileiro de US$ 400 por tratamento anual. O Ministério da Saúde considerou abusiva a solicitação da empresa farmacêutica e suspendeu a possibilidade de um acordo imediato, argumentando que a chegada da inovação ao país exige um preço justo.

Enquanto avançam as negociações em torno dos injetáveis, uma nova alternativa oral de prevenção também está em desenvolvimento. Trata-se de uma pílula mensal chamada alimatravir, desenvolvida pela MSD e atualmente avaliada em estudos clínicos de fase 3 para uso como PrEP.

O Brasil já se antecipou à possibilidade de aprovação do medicamento. Um memorando de entendimento firmado entre a Fiocruz, o Ministério da Saúde e a MSD prevê o desenvolvimento da produção nacional. Após a validação do medicamento, haverá produção imediata no Brasil.

No campo do tratamento, foram apresentados os primeiros resultados detalhados dos ensaios ISLEND-1 e ISLEND-2, que avaliam a combinação oral semanal de islatravir e lenacapavir. A estratégia tem potencial para se tornar o primeiro tratamento oral completo de uso semanal contra o HIV.

A busca pela remissão também fez parte da programação. Uma das avaliações apresentadas abordou o chamado “paciente de Kansas City”, que permanece em remissão sustentada do HIV há 14 meses sem tratamento, após receber um transplante de células-tronco CCR5Δ32.

Mas os avanços da ciência não foram discutidos de forma isolada das condições políticas e financeiras que determinam sua chegada às pessoas.

Uma análise rápida de dados recém-divulgados pelo PEPFAR mostrou o impacto, no mundo real, das interrupções do programa sobre o tratamento de crianças vivendo com HIV. A AIDS 2026 ofereceu um espaço importante para discutir abertamente a crise de financiamento que interrompeu serviços e atingiu especialmente as populações mais vulneráveis.

Os efeitos dessa crise também apareceram em uma análise realizada em diferentes países sobre a saúde de mães e recém-nascidos. O estudo mostrou os riscos provocados pela queda na disponibilidade de testes rápidos duplos para HIV e sífilis, inclusive diante do surgimento de situações de desabastecimento.

A programação trouxe ainda uma avaliação da implementação inicial do lenacapavir injetável semestral para prevenção do HIV em oito países africanos.

No campo das vacinas, foram apresentados avanços promissores, entre eles os resultados de um estudo que avaliou uma nova vacina mRNA-LNP contra o HIV em macacos rhesus.

Para além das apresentações científicas, a conferência também foi um espaço de diálogo, articulação e mobilização. No estande da AHF, participei de conversas informais sobre integração dos serviços, retenção no cuidado e coinfecção por tuberculose, ao lado de colegas da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), de universidades e de Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Na Vila Global, essas discussões ganharam ainda mais espaço e foram acompanhadas por protestos contra a Gilead.

Participei também de duas palestras. A primeira tratou de testagem e reengajamento, durante uma sessão da OPAS. Na ocasião, anunciamos um acordo para trabalhar em países selecionados, ampliando a testagem e promovendo a vinculação e a retenção das pessoas nos serviços.

A segunda apresentação abordou as infecções sexualmente transmissíveis e o HIV entre os povos indígenas no Brasil e foi realizada durante a reunião da IAS para a América Latina e o Caribe.

Ao longo da semana, as oportunidades de networking dividiram espaço com protestos contra a Gilead e contra o fim do PEPFAR. Em diferentes momentos, uma pergunta atravessou as mobilizações: onde está o dinheiro?

A pergunta resume um dos principais desafios colocados pela conferência. Sem financiamento, preços viáveis, testagem, vinculação e permanência no cuidado, as descobertas apresentadas nos grandes encontros científicos correm o risco de não chegar a quem mais precisa. O avanço da resposta ao HIV dependerá da capacidade de transformar conhecimento e inovação em acesso real.

* Dra. Adele Schwartz Benzaken é médica, pesquisadora e doutora em Saúde Pública pela ENSP/Fiocruz. Diretora médica global sênior da AHF, atua há mais de quatro décadas nas áreas de HIV, infecções sexualmente transmissíveis e saúde pública. Foi diretora do departamento responsável pelas políticas de IST, HIV/aids e hepatites virais do Ministério da Saúde, oficial do UNAIDS no Brasil e diretora da Fiocruz Amazônia. Em 2023, recebeu a Ordem Nacional do Mérito Científico.

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