Paulo Roberto Teixeira
O prof. Robert Gallo tem saído de sua bancada no laboratório, de onde deu enormes contribuições para o conhecimento do HIV, para intervir em questões que não domina ou sobre as quais tem opiniões extremamente duvidosas.
Assim, tem se manifestado publicamente contra os esforços desenvolvidos pela OMS, Fundo Global, Unaids e Banco Mundial para ampliar o acesso ao tratamento ARV nos países pobres e em desenvolvimento, criando sistematicamente dificuldades adicionais a estas iniciativas.
Seu argumento habitual de que o tratamento nestas regiões levará à produção de vírus muito resistentes, por falta de capacidade técnica e baixa aderência da população, já foi devidamente contestado com evidências científicas colhidas no Brasil, no Haiti, no Mali, em Botswana, Tailândia e África do Sul, entre outras.
No entanto, o Professor Gallo persiste e amplia a sua campanha.
Ao considerar suas declarações prepotentes, reacionárias e desrespeitosas dadas à Agência Aids e ao jornal O Estado de S. Paulo, somos levados a concluir que, mais que suas opiniões, suas razões são altamente discutíveis.
Ao criticar a política brasileira de acesso universal aos medicamentos antiretrovirais, o Professor Gallo revela absoluta insensibilidade diante do sofrimento alheio.
Suas posições privativistas têm prejudicado o acesso universal ao tratamento inclusive em seu próprio país. Estima-se que quase 30% dos portadores de HIV com indicação de tratamento ARV nos Estados Unidos da América não estão recebendo os medicamentos necessários, exatamente porque são pobres ou ilegais, e portanto sem recursos financeiros para bancar um seguro saúde.
Eximir os governos de responsabilidade e colocá-la na esfera estritamente individual é ignorar que a saúde é um bem público, não um bem supérfluo de consumo.
Ao privilegiar o lucro das empresas em detrimento do acesso universal aos medicamentos, o Professor Gallo inverte a equação entre direitos humanos e privilégios dos mais ricos. Ora, é isto o que queremos combater no Brasil ou em qualquer outro lugar.
O prestígio indiscutível e as conseqüentes repercussões de suas declarações deveriam levá-lo a refletir mais seriamente sobre suas responsabilidades junto à opinião pública internacional pois, se levarmos às últimas conseqüências os argumentos esdrúxulos por ele apresentados no Brasil, chegaremos à conclusão de que é necessário defender também o interesse dos investidores, grandes e pequenos, da indústria de armas e do tabaco.
Afinal, por que ele veio ao Brasil?
Paulo Roberto Teixeira foi diretor do Programa Nacional de DST/Aids e do Programa de Aids da Organização Mundial da Saúde
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