ADOLESCÊNCIA – O INÍCIO DE UMA INUSITADA E PARTICULAR VIAGEM DE VIVÊNCIA DA SEXUALIDADE – Cristina Vasconcellos – Formou – se em Direito pela PUC – SP

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Cristina Vasconcellos

Quem for assistir ao filme “Aos Treze” em cartaz nos cinemas da cidade, provavelmente se sentirá incomodado, com um certo mal estar, ao ver o envolvimento de uma jovem de apenas treze anos, que há pouco entrou na puberdade e começou a viver sua adolescência, envolvida com sexo, drogas, furto… A jovem age por impulso, próprio do adolescente, não demonstra pensar nas conseqüências de seus atos, na possibilidade de contrair o vírus da Aids, enfim de se dar mal, muito mal! Ela faz tudo para se tornar amiga de uma garota da sua escola que com seu jeito mais descolado, faz o maior sucesso perante os garotos mais velhos.
A menina do filme passa a fazer coisas, aparentemente contrárias aos valores que recebeu, como por exemplo furtar, somente para agradar a garota de quem quer ser amiga e mostrar que tem tudo para “fazer parte da mesma turma”. É verdade que a família da menina no filme não é lá muito estruturada. Mas sabemos que mesmo as famílias com boa estrutura emocional e psicológica, que se preocuparam em passar valores aos filhos, estão sujeitas a vê-los envolvidos nesse tipo de situação quando chega a adolescência.

Entre nove e doze anos, com o início da produção dos hormônios sexuais, o impulso sexual dos jovens vem à tona com a força de um vulcão. Com a chegada da puberdade, o início da adolescência, além das inúmeras transformações físicas que passam a ocorrer – mudanças na voz, crescimento dos seios, desenvolvimento do pênis, amadurecimento dos órgãos reprodutores, primeira menstruação, primeira ejaculação, entre outras -, também começa a se modificar o jeito de pensar, a maneira de ver o mundo, de se relacionar com as pessoas, com as novas sensação e emoções que as garotas e garotos passam a sentir.
Não é nada fácil para o adolescente dar conta de todas essas transformações relacionadas à sexualidade, ao corpo, as emoções e sensações.
É verdade que o assunto sexo, na atualidade, diferente do que acontecia no passado, passou a ser abordado mais abertamente, com mais freqüência tendo aumentado inclusive, significativamente, com as campanhas de prevenção à Aids. Hoje existe a disciplina de educação sexual em muitas escolas. A quantidade de livros publicados com estudos sobre o tema também cresceu muito. Revistas compradas em bancas de jornal, dirigidas aos adultos e aos adolescentes, sempre trazem matérias sobre sexo. Filmes com cenas eróticas podem ser vistos na televisão a qualquer hora da noite. Falar de sexo passou a ser algo mais freqüente até mesmo nas conversas em família.
Isso não quer dizer, entretanto, que os adolescentes estejam mais bem preparados para lidar com a sua sexualidade, para fazer sexo com segurança. Tem muita gente por aí entrando em fria, como a garota do filme, porque, apesar de bem informada, não coloca em prática o que sabe. De que adianta, por exemplo, uma pessoa saber tudo sobre camisinha se na hora em que ela tem uma relação sexual não a usa? Muitos adolescentes, inclusive, apesar de informados sobre os riscos de se contrair uma doença sexualmente transmissível ou os riscos de uma gravidez indesejada, transam sem camisinha para dar uma “prova de amor” ao seu parceiro.
Para que o adolescente consiga compreender e lidar bem com o que está se passando nesse momento da sua vida, ele precisa fazer mais do que reunir informações. Ele precisa apreender, interiorizar, se apropriar das informações que tem como algo necessário, importante, que faz sentido para ele, que deve e precisa ser posto em prática. Ele precisa compreender e acreditar que é capaz de tomar a sua vida nas próprias mãos.
A descoberta e vivência da sexualidade que começa mais concretamente na puberdade, pode ser comparada a uma viagem que o adolescente vai fazer a um lugar completamente desconhecido, cuja língua é diferente da que ele fala, o clima, a cultura, os costumes são diferentes daqueles com os quais ele está acostumado.
Como bem sabemos, parte do sucesso ou do fracasso de uma viagem depende de como nos prepararmos para fazê-la. Se preparar minimamente pode evitar muitos aborrecimentos. Obter algumas informações sobre o lugar para onde se está indo, levar na mala roupas adequadas, alguns remédios, protetor solar se formos enfrentar o sol, podem garantir uma parte do sucesso da nossa viagem. Juntar umas tantas roupas na mala, não se informar antes, apenas jogar com a sorte e deixar rolar, não são boas opções e podem acabar transformando uma viagem em algo muito ruim, a ponto até de colocar em risco a nossa própria vida. Assim também acontece quando se trata da vivência e exploração da sexualidade.
Entendo que, se o adolescente perceber e acreditar que ele consegue dar conta de controlar seus desejos e suas emoções, que é importante ele procurar entender as transformações que estão ocorrendo no seu corpo, nas suas sensações, no seu jeito de ver e sentir as coisas, que é fundamental ele se informar sobre a Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis, refletir antes de tomar uma decisão, levar sempre na sua bagagem camisinha e nunca, nunca mesmo, deixar de usá-la, selecionar o que vai carregar na sua mochila, se livrando dos pesos excessivos como os preconceitos, as pressões da turma, a idéia de que “perdemos” nossa virgindade, que sempre temos que dar conta de ter uma ereção, entre outras coisas, ele conseguirá garantir parte do sucesso dessa sua viagem de descoberta e exploração da sua sexualidade.
Ele terá condições de viver, aos treze, aos catorze, aos quinze… essa inusitada e particular viagem de vivência da sua sexualidade sem correr riscos desnecessários, com muitas chances de chegar são e salvo ao seu destino, em plenas condições de desfrutar tudo o que há de melhor no relacionamento sexual e afetivo, desfrutar de todo o prazer que o sexo pode proporcionar e com vontade de voltar lá muitas e muitas outras vezes, porque a vivência da sexualidade é uma viagem a ser feita por toda a vida.

Cristina Vasconcellos formou-se em Direito pela PUC-SP e lançou seu primeiro livro de ficção, “Intersecções”, em 1995, pela editora Maltese. Lançou em 2002 o livro “Sexualidade – Um guia de viagem para adolescentes”, pela Martins Fontes. Está envolvida com a causa Aids há uma década. E-mail para contato: crvascon@terra.com.br

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