Adeus ano velho?

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Por Beto Volpe

31/12/2016 – Chega ao fim um ano que, assim como 2001 e suas torres gêmeas, será considerado como um divisor de águas para a humanidade. A escalada da ultradireita na Europa, a capilarização de fundamentalistas religiosos que vaporizam pessoas em nome de seu deus e a eleição de Donald Trump com uma plataforma agressiva contra as minorias, ameaçam levar o mundo a um novo período de trevas, onde o medo e a exclusão serão a tônica da tão esperada e surpreendentemente sombria Era de Aquário.

No Brasil não foi diferente, a tomada do poder pelos setores conservadores nos faz antever uma série de retrocessos em direitos conquistados a duras penas pelos movimentos sociais, o que torna a luta contra a aids alvo prioritário nessa onda de ‘reformas’, como se já não bastasse a ineficácia do poder central frente à crescente complexidade da epidemia.

Um grande ensinamento que essas mais de três décadas de luta nos trouxe é que qualquer descuido pode colocar em risco todo o trabalho desenvolvido e reverter todas as previsões otimistas sempre alardeadas por sucessivos gestores em saúde. No Brasil, temos como exemplo o estado do Rio Grande do Sul, onde uma série de fatores tornou obrigatória a instalação de uma força tarefa para tentar compreender o que levou um dos estados mais avançados do país a entrar em uma situação de calamidade. Mas a situação vai muito além dos pampas, a tão propalada ‘prevenção combinada’, onde a falta de ações de prevenção tradicionais se combina com as dificuldades na implantação de novas tecnologias, revela a inércia dos poderes constituídos no combate à aids, que resulta em mais de 40 mil infecções este ano e índices iguais aos do início da epidemia, com inúmeros municípios apresentando um caso novo por dia.

A banalização generalizada do risco de contrair o HIV pela sociedade e as dificuldades de acesso a informações e aos serviços de saúde faz com que a taxa de adesão ao tratamento que não ultrapasse os 60%, o que traz como consequência outro indicador assombroso em nosso país, uma mortalidade que não somente se mantém, mas vinte estados brasileiros apresentaram aumento no número de óbitos, onde figuram todos os do Norte e Nordeste, com destaque para o Pará que praticamente dobrou esse índice. O resultado são mais de 12 mil mortes ao ano, não levadas em consideração outras tantas decorrentes de doenças não determinantes de aids, relacionadas ao tão negligenciado envelhecimento precoce das pessoas vivendo com HIV.

Outra área onde são esperados diversos recuos é a de políticas voltadas ao povo do arco íris, que amarga este ano mais um recorde no número de assassinatos de pessoas LGBTT, e também a revogação do uso do nome social por pessoas transexuais e transgênero. Junte isso tudo à aprovação da PEC 55, que delimita um teto para os gastos públicos, e veremos o fim do SUS como instituído pela Constituição de 1988, quando os mesmos conservadores que hoje estão no poder lutaram arduamente para que se suprimisse a expressão ‘a Saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado’. Por exemplo, como será feita a inclusão de novas tecnologias e de medicamentos no arsenal da Anvisa?

É, este ano foi bastante complicado e, assim como 1968 foi o ano que não terminou, 2016 trará reflexos negativos por muito tempo em todas as áreas sociais e de saúde. Não dá para celebrar um feliz ano novo e,  muito menos, um adeus ao ano velho, ele não terminará tão cedo.

* Beto Volpe é ativista, escritor e autor do livro "Morte e Vida Posithiva".

 

 

 

 

 

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