A VULNERABILIDADE E CONSTRUÇÕES DE ENFRENTAMENTO DA SOROPOSITIVIDADE POR MULHERES – Ana Alayde Werba Saldanha é Doutora em Psicologia pela FFCLRP-USP

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Ana Alayde Werba Saldanha

A Aids parecia tão distante… até aquela manhã, já no final da década de 1980, quando, ao entrar nas enfermarias da Maternidade onde trabalhava, deparei-me com uma delas fechada, com uma paciente no isolamento. Soube tratar-se de uma mulher , cuja sorologia positiva para o HIV assustava a todos. Ela aguardava, sozinha, até que fosse removida para outro hospital…
Foi assim que a Aids passou a fazer parte da minha vida. Como disse Dalton Ramos (2001), “o vírus pode não estar em nossa circulação, mas a Aids está definitivamente em nossas vidas e não se pode ser indiferente a ela…”
A partir de então, o interesse pelo tema me contagiou, tomou conta do meu trabalho e lançou-me na pesquisa, sempre junto das pessoas afetadas pelo HIV. Veio então, a Especialização, o Mestrado, Doutorado…
Foram anos de atendimento e convivência junto a estas pessoas, conhecendo seu mundo, seu cotidiano, seus sentimentos. E cada depoimento foi um grande aprendizado, o que vem a confirmar que os esforços voltados para a transformação de práticas dos sujeitos, além de aspectos relacionados à ordem econômica, política e social, devem levar em conta a sua dimensão simbólica, o que implica em considerar a visão de mundo do sujeito que será alvo da ação.
Ao tratar-se de mulheres, o maior agravante da vulnerabilidade é evidenciado pelas limitações no espaço de suas relações pessoais, principalmente no que se refere à relação conjugal, local onde as reciclagens de gênero se encontram mais visíveis e, ao mesmo tempo, mais ocultas. Sua prática cotidiana naturaliza as relações de dependência objetiva e subjetiva, implicando um escasso nível de individualidade, uma ordem de prioridade sentimental e ideais de postergação, mais do que o êxito pessoal.
O discurso da natureza feminina, os mitos da maternidade, da passividade e o discurso do amor romântico subsidiaram a construção histórica de uma forma subjetiva própria das mulheres – o ser do outro em detrimento do ser de si – tendo como conseqüência sua fragilização através de diversas formas de dependência objetivas e subjetivas.
É preciso considerar que, se anteriormente a dependência econômica, a ignorância intelectual e a passividade foram condições materiais que possibilitaram a permanência da mulher no mundo privado, atualmente se dá através do controle das subjetividades, estabelecendo formas de dependência mais invisíveis, porém não menos eficazes.
De toda forma, cada mulher se insere em certo grau de submissão, porém também organiza, consciente ou inconscientemente, formas de resistência. A partir daí é que terão lugar os sistemas de alianças, as confrontações sutis ou abertas, que caracterizam cada história conjugal ou familiar.
Partindo destes pressupostos e visando a redução da vulnerabilidade e construções de modo de enfrentamento à soropositividade pelo HIV, elaboramos uma proposta de intervenção que tem por objetivo, através de grupos de mulheres, identificar os conflitos e contradições, possibilitando a ressignificação de suas representações, experiências e práticas, apontando para a possibilidade de transformação no modelo e nas práticas relacionadas à saúde e qualidade de vida.
Para compreender o modo como os sentidos são produzidos e assim promover uma reflexão que possibilite a “desconstrução” de conceitos e crenças que, enquanto tais, colocam-se como obstáculos para que outros sejam construídos, considera-se necessário trabalhar na interface dos três tempos, conforme citado por Spink & Medrado (2000): o tempo longo, o tempo vivido e o tempo curto. Sendo assim, cada tempo descrito corresponde a um dos encontros abaixo. O tempo futuro foi incluído a partir da construção de metas e projetos.
1o Encontro: O que aconteceu comigo? – Propiciar a integração inicial do grupo e inserir a discussão sobre a Aids, promovendo uma reflexão a respeito do impacto da Aids na vida das mulheres
2O Encontro: História de Vida – Identificar, na história de vida, as experiências fragilizadoras e os caminhos encontrados para romper com o determinismo; construir modos de enfrentamento dos problemas atuais a partir de experiências vividas; oferecer possibilidade de ressignificar as experiências passadas.
3o Encontro: Amar é… Ser mulher é.. – Discutir o amor no plano dos relacionamentos e as relações de gênero, mostrando os determinantes históricos, sociais e relacionais na construção do feminino;
4o Encontro: Construção de metas. Construção de projetos, metas futuras, discutindo sobre como torná-las realidade. Enfatizar o fortalecimento das participantes através da interação em grupo;
Sendo assim, buscamos a garantia de um espaço de reflexão que possibilite aos seus participantes, rever, de forma compartilhada, seus papéis e expectativas, auxiliando na prevenção ou na construção de uma convivência mais positiva com a Aids e promovendo uma melhora na qualidade de vida e na luta pela própria cidadania.
Mas este projeto já cresceu. Ele faz parte de um Projeto maior, o Programa de Pesquisa e Atendimento à Aids, implantado junto à Universidade Federal da Paraíba, com apoio do PAPSI da USP/Ribeirão Preto e financiado pelo CNPq, envolvendo a tríade paciente-familia-profissionais de saúde (https://www.papsi.ffclrp.usp.br).
Estamos começando e o caminho é longo. Mas é preciso sempre acreditar!



Ana Alayde Werba Saldanha é Doutora em Psicologia pela FFCLRP-USP, Coordenadora do Programa de Pesquisa e Atendimento Psicossocial à Aids, junto ao Núcleo Aspectos Psicossociais de Prevenção e da Saúde Coletiva, Departamento de Psicologia, Universidade Federal da Paraíba.
Contato: analayde@pontoweb.com.br ou telefone (0XX83) 216-7675.

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