Em 1988, rumores de uma doença medonha e catastrófica começaram a rondar meus ouvidos. As pessoas tinham medo, ninguém sabia direito o que era essa tal de Aids que roubava a vida, assim… num estalo.
Fiquei muito preocupada com as pessoas que conviviam com este monstro, eu queria ajudar, chegar perto, arrancar o sofrimento delas e foi assim, timidamente, que me aproximei, li os artigos disponíveis, que eram poucos em português, procurei informações e principalmente estreitei minha convivência com os portadores.
Escolhi os excluídos, comecei a visitar aqueles que foram escorraçados pelas suas famílias, humilhados pelo preconceito.
Na época as alternativas eram inexistentes, usava-se Bactrim e Dipirona. O Instituto de Infectologia Emílio Ribas era minúsculo diante do número de pessoas que necessitavam atendimento. Os corredores do hospital ficavam lotados de gente gemendo nas macas. E de repente me vi de mãos dadas com a morte, completamente impotente diante da catástrofe.
Ainda assim, não desisti, embora muitas vezes a dor fosse maior que a coragem, mas eu não podia cometer a crueldade de soltar as mãos daqueles seres humanos que se apegavam a mim com todas as suas forças.
Eu acreditei. Prometi a mim mesma que ficaria junto deles, sempre.
Em 1991 surgiu a esperança, o AZT. E depois dele outro, e mais outro. E hoje temos no coquetel diversas combinações que transformaram o mostro num “serzinho” que até dá pra conviver.
A casa de apoio que eu visitava teve de fechar, o GAPA –SP. A quantidade de pessoas abandonadas era imensa e elas precisavam de mais, de uma casa para morar, de alguém que cuidasse delas, de uma família. Um morador do GAPA, Carlos Bom de Oliveira, e eu, com a cara e a coragem, alugamos um porão no parque São Rafael, zona leste de São Paulo, e começamos a abrigar os abandonados. Fomos muito discriminados, as pessoas cuspiam quando a gente passava, usavam termos pejorativos e nos enchiam de ofensas. Aos poucos fomos conquistando os vizinhos, os comerciantes, e logo tínhamos muitos amigos e alguns colaboradores. Quase dois anos com a casa em funcionamento, Carlos conheceu o Padre Danilo, que acreditou no nosso trabalho e comprou uma casa. A igreja assumiu a casa e trabalhamos juntos até o dia em que Carlos partiu. Em 1995 uma cirrose hepática levou desta vida meu grande amigo. Esta instituição ainda hoje faz um belo trabalho: “Casa Espírito e Vida”.
Quando o Carlos se foi, deixou a casa estruturada. A igreja mandou pessoas para continuar o trabalho, pois eu não poderia assumir um trabalho diário devido à distancia. Continuei visitando a casa e pacientes na periferia, atendendo na medida do possível suas necessidades.
Novamente vivi o drama de ver pessoas abandonadas, necessitando de um lar e as casas de apoio sem vaga.
Em janeiro de 1996, num barraco na favela Fazenda da Juta, zona leste, passei a abrigar apenas dois pacientes, pois não tinha recurso financeiro e nem espaço físico. Em junho daquele ano, aluguei uma casa de quatro cômodos, no bairro Parque Novo Oratório, na cidade de Santo André. Com todas as dificuldades, abrigava seis pacientes. Com dois anos de funcionamento desta casa, abriguei e assisti 35 pessoas. Fazia um trabalho de prevenção na comunidade local e visitava famílias.
Os problemas eram muitos, mas consegui proporcionar abrigo, alimento, tratamento, noção de vida familiar e dignidade às pessoas que passaram por esta entidade.
Por uma grande infelicidade, em junho de 1998 sofri um sério problema de saúde, um coágulo no cérebro, sendo obrigada a me afastar dos trabalhos da entidade, entregando-a em mãos de voluntários, os quais conseguiram manter a casa por apenas três meses. Transferi os pacientes que ainda moravam lá e a instituição foi fechada.
Fiquei quase dois anos afastada do trabalho social, mas quando estava totalmente recuperada, retomei as visitas.
Hoje, este é o meu papel: mostrar para o portador que é possível viver bem com HIV, que este não é o fim e sim o começo de uma outra maneira de viver. Que as angústias, os medos e a insegurança são degraus para alcançar fortalecimento interior.
Acompanho alguns portadores, meu trabalho ainda hoje é voltado para os excluídos. Procuro fortalecer esse ser humano e reintegrá-lo à sociedade, mostrando que é possível sair das margens e adentrar o mundo social, estudando, trabalhando, namorando, amando, fazendo amizade e vivendo com seus próprios recursos.
Enfrento muitas dificuldades na realização deste trabalho: preconceito, poucos recursos financeiros, falta de apoio e uma enorme solidão.
Mas o que me mantém firme é ver alguém levantar a cabeça, olhar para o horizonte, e não mais só para o chão, e caminhar com suas próprias pernas.
Liliane Alves é corretora de seguros
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