Alessandra Nilo, jornalista e fundadora da Gestos Soropositividade
Foi como mergulhar em um furacão, entrar nessa outra dimensão chamada Conferência Internacional de AIDS. A XVI delas certamente não foi a mais excitante ou revolucionadora, isso muitos comentaram, antigos e novos participantes. Mas todos, todas e cada um tinha algo importante a escutar e a falar. Falar sim, mesmo que não fosse exatamente, em inglês como exigem os protocolos, os diplomatas e agora, aprendi, como exige a organização das Conferências Internacionais de AIDS.
A comunicação, claro, fluiu. Com diferentes cores, formas, combinações e o recado, pra quem é bom entendedor, bastou: as línguas precisam ser consideradas na agenda do movimento AIDS. Não falo apenas das línguas ferinas, das adulantes ou das que delizam ávidas e umedecidas pelos corpos de ativistas mais ativos e articulados. Refiro-me aos idiomas. É preciso investir em capacitações para idiomas e as instituições financiadoras não podem continuar ignorando este fato. O que vimos em Toronto foi a barreira da língua dificultando o acesso universal, geral e irrestrito ao conhecimento. E a ausência desse conhecimento faz, realmente, toda diferença para o movimento social.Não bastasse a tendência natural a esquecer a América Latina no contexto internacional, faltaram mais vozes da região questionando, compartilhando experiências e solicitando – em inglês – melhores políticas para a região nas grandes plenárias.
Claro, foi possível exibir e expressar muitas de nossas inquietações e demandas. A Abbott que o diga, após tantas manifestações contra sua política de preços. Mas ali também não haviam tantos ativistas da região. Em diferentes espaços discutiu-se sobre o direito de cada um a tomar decisões sobre o próprio corpo, apresentou-se demandas por estratégias de prevenção mais horizontais e participativas, a acesso ao tratamento como algo muito mais complexo (e completo) que apenas acessar medicamentos. Na América Latina estamos fazendo isso há anos, temos o número de pessoas em tratamento, excelentes práticas de prevenção, buscamos transversalizar direitos humanos na agenda de AIDS mas… continuamos invisíveis na agenda internacional do movimento AIDS.
É verdade que a Conferência também permitiu reeencontrar diferentes parceiros e organizações comunitárias que poucas vezes se encontram em seus próprios países. Mas tais articulações não foram suficientes para marcar posição enquanto região. Não nos preparamos suficientemente para isso: o esforço dos poucos latinos que estavam falando em espaços importantes e buscando influenciar a “agenda internacional”, não foi suficiente, porque ainda somos poucos. Não foi suficiente na UNGASS, em 2006, cuja Declaração Política nos ignorou – apesar de que nossos países, de fato, fizeram a diferença na briga pelas propostas mais progressistas; não foi suficiente na noite de abertura da Conferência de AIDS na qual, sintomaticamente, Richard Gere cumprimentou todas as regiões, exceto a América Latina; não foi suficiente na premiação do Red Ribbon Award, na qual, participando como jurada, Violeta Ross, eu e companheiros de outras regiões solicitamos como critério importante o balanço regional. Resultado ? Duas premiações para África, duas para Ásia e uma para leste Europeu.
Realmente, essa não é uma Conferência para esquecer. Principalmente pelas lições que aprendi e pelo silêncio que me incomodou. Outros aprenderam também. Talvez até o Richard Gere, que cumprimentou finalmente a América Latina na sua fala de encerramento. O que trouxe para casa é algo que espero transformar em mudança. Mudança que se consilode em habilidades para que, na próxima vez –México, 2008 – seja possível escutar ecos da nossa própria voz. E que possamos fazer isso em diferentes línguas, com todas as letras e com nossos(as) grandes ativistas latinos ocupando os espaços estratégicos que merecem ocupar. Também há heróis em nossa região, também há ativistas que se dedicam integralmente ao acesso a tramento, prevenção, gênero e DH. Chegou a hora desses homens e mulheres sairem do closet, romper a barreira da língua e investir no inglês. Do contrário nossas respostas continuarão invisíveis, não apenas para as políticas internacionais, mas também para o próprio movimento de AIDS no mundo.
Alessandra Nilo é jornalista, fundadora da Gestos, membro da Comissão Executiva da Laccaso e coordena a articulação Um Mundo, Uma Luta.
Tel: (0XX81)3421-7670/ 3421-7727
Apoios



