A primeira camisinha a gente não esquece – Liandro Lindner é jornalista e mestrando em Comunicaçao e Saúde (ICIT/Fiocruz)

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Por Liandro Lindner

Lembro muito bem do dia que a aids deu um grito mais perto. Era 1995 e eu estava numa rodoviária, no interior do Rio Grande do Sul, ouvindo Eu Não Matei Joana Darc, do Camisa de Vênus. Encontrei um amigo que também estava indo para Porto Alegre. Conversa vai, conversa vem, ele me conta que tinha adotado uma criança. Fiquei espantado que um companheiro de festa, e de copo, tivesse uma atitude daquele nível. Naquele dia, disse que ele cresceu em vários pontos na minha escala.

E cresceu muito mais: o filho dele havia nascido com aids. Meu espanto se transformou em susto, afinal só sabia da doença em pessoas adultas que fazem sexo, usam drogas, curtem a vida adoidada. Jamais imaginei uma criança nascer com o HIV. Ele me explicou que com o tempo a criança poderia negativar o vírus, que ela nasceu assim por causa da mãe e ele a conhecera num abrigo. Foi paixão logo de cara.

Terminada a viagem, ficou o convite dele para visitar a criança. No outro dia, já liguei e marcamos uma visita. No caminho até a casa dele, mais uma vez, o Camisa de Vênus tocava no rádio – desta vez a dançante Beth Morreu. Chegando lá, fui ver o menino: um negrinho lindo, pequeno, e envolvido em cobertores. Tinha menos de três anos e já inundava de esperança, com sua presença, a vida dos que o cercavam. Fiquei impressionado com a coragem do meu amigo e de sua família com aquele ato e voltei para casa me sentindo um nada por não estar, como ele, envolvido em alguma causa maior que fizesse o bem para alguém.

Passei a visitá-los seguidamente e me tornei padrinho da criança. Vi seu crescimento, sua entrada na escola, seus problemas de saúde que o levaram a uma internação difícil. Por causa dele, passei a ler mais sobre aids e ingressei numa ONG. Conheci centenas de pessoas que vivem esta situação.

Por causa do meu afilhado, sempre me chamou a atenção a segunda geração da aids, os filhos de mulheres soropositivas. Nos início dos anos 90, ter um diagnóstico positivo era uma sentença de morte e ter a coragem de trazer para o meio da família uma criança nesta situação é algo muito nobre, cujo gesto, na época, eu era incapaz de ter. A oportunidade de ter todas estas experiências e reflexões nasceu com um negrinho pequeno que hoje é um belo rapaz, alto, forte, de olhos claros e dois brincos nas orelhas que, infelizmente, não negativou, mas tem uma boa qualidade de vida sem maiores problemas de saúde.

Mas sempre que ouço algum especial da MPB dos anos 90 e aparece alguma musica do Camisa de Vênus, recordo-me daquela hora de viagem que modificou o rumo da minha vida e me fez mais humano e melhor. Talvez, apenas uma coincidência, talvez um recado do destino, nem foi minha primeira camisinha, mas é a camisa de vênus que eu nunca esqueço e me marcou para sempre.

Jornalista e Mestrando em Comunicaçao e Saúde (ICIT/Fiocruz)

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