A NOVA GUERRA DE ANGOLA – Pablo Toledo – Jornalista – Trabalhou nas rádios Eldorado, Bandeirantes – antes de embarcar para Angola, era repórter do Jo

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Pablo Toledo, jornalista



Dias antes de embarcar para Luanda, em agosto de 2002, ouvi de um de meus novos patrões que o mais fascinante sobre a empreitada angolana seria a possibilidade de poder testemunhar in loco o momento singular que o país vivia. Todo dia era um dia histórico. Depois de vinte e sete anos de guerra civil, finalmente em abril daquele ano, Governo e rebeldes haviam assinado um acordo de paz, possível apenas depois da morte de Jonas Savimbi, fundador e principal líder da Unita (União pela Independência Total de Angola), dois meses antes.


Parti com a mesma missão de outros técnicos brasileiros levados pela Link Propaganda e Comunicação, antiga parceira do Governo angolano nos assuntos da Comunicação Social: levar know how e experiência jornalística aos camaradas angolanos, como forma de contribuir, a meu modo, para a reconstrução de um país que também fala português, adora novela, tem paixão por futebol e cuja população, a exemplo da nossa, também rebola. Das mais diversas formas, nos mais diferentes campos.


Fui trabalhar num programa de TV chamado Nação Coragem, veiculado toda segunda-feira em horário nobre pela Televisão Pública de Angola. Durante muitos anos, o NC dedicou-se à cobertura da guerra. A paz, claro, implicou a mudança do foco editorial. O Nação Coragem passou a enfatizar ações que estimulassem a reconstrução do país e a reconciliação de um povo que viu durante quase três décadas seus filhos se enfrentarem em batalhas pra lá de cruéis, destas que não passam na CNN e em que a ONU finge que atua. Afinal, era Angola, não o Kosovo.

O NC passou a ter dois pilares: uma campanha de localização de famílias separadas durante a guerra, o Ponto de Reencontro, e o que começou como uma série de reportagens especiais: Sida, o Retrato de uma Epidemia.


A idéia foi de Sérgio Guerra, sócio da Link, diretor e um dos idealizadores do Nação Coragem. Ligado há vários anos ao GAPA da Bahia, o publicitário que leva o pior pesadelo de Angola na assinatura foi pioneiro ao identificar nos conflitos, pasmem, uma herança positiva. E única na região. Por causa da guerra – e da conseqüente falta de liberdade para ir e vir – o vírus não se disseminou pelo país, ao contrário do que aconteceu com os vizinhos. Em Angola, as estatísticas indicam uma taxa de infecção de 5% da população sexualmente ativa. Os dados são da Unaids, o braço das Nações Unidas encarregado do combate a Aids.


As reportagens especiais do Nação Coragem rapidamente se transformaram num grande instrumento de conscientização da população. Falamos sobre os sintomas, os tipos de testes, o histórico da doença, as experiências de países como Brasil e Portugal e, acima de tudo, dedicamos enorme espaço às dicas de prevenção. Ressalte-se: a poligamia não está prevista na lei, mas é socialmente aceita em todas as camadas sociais. A camisinha é barata, algo como 10 kwanzas (menos de 50 centavos de Real), mas custa muito para a imensa maioria da população. Nossos repórteres testemunharam um capítulo surreal da miséria: prostitutas que cobram menos para transar sem preservativo. Repito, menos. Assim, economizam 10 kwanzas. Mal sabem que pode lhes custar a vida. O que é a vida, no entanto, senão a próxima refeição?


Um avanço importante nesta luta foi a participação dos soropositivos. Coube ao Nação Coragem mostrar pela primeira vez na televisão de Angola uma portadora do HIV. A jovem Soraya tornou-se um símbolo nacional de bravura. Antes do seu depoimento ao NC, até mesmo atores que interpretavam personagens soropositivos eram hostilizados nas ruas, vítimas de preconceito. Na esteira da primeira entrevista, mais portadores ganharam coragem: primeiro um homem, depois mais uma mulher e outra e outra…


Sim, o preconceito ainda é grande também em Angola, mas o avanço desde outubro de 2002, quando começou a campanha, foi enorme. Informações básicas sobre o HIV espalharam-se com sucesso. O número de pessoas que, voluntariamente, procuram hospitais e postos de saúde para fazer o teste do HIV cresceu em até cinco vezes em algumas regiões da capital Luanda.


Nossas equipes estiveram na África do Sul, na Suazilândia, na Zâmbia, no Lesoto e em Moçambique. Mostraram experiências de sucesso nesta luta e erros que Angola pode e deve evitar. A série Sida, o Retrato de uma Epidemia rendeu ao Nação Coragem o Prêmio SADC de Jornalismo em 2003, título concebido e entregue pelo grupo que reúne os catorze chefes de Estado da África Austral.


A grande conquista, no entanto, ainda está por vir. Graças ao embrião gerado pelo NC – com a imprescindível colaboração de profissionais brasileiros – Angola hoje dispõe de uma perspectiva proibida a alguns irmãos africanos. Daqui a alguns anos, o país poderá olhar pra trás e ver que conseguiu evitar uma epidemia que terá então dizimado algumas populações vizinhas. E que aquele período de pós-guerra guardava sim dias históricos.

Pablo Toledo é jornalista. Trabalhou nas rádios Eldorado, Bandeirantes e, antes de embarcar para Angola, era repórter do Jornal da Band, da TV Bandeirantes. Voltou ao Brasil no fim de 2003. Em agosto, embarca para Nova Iorque, onde foi admitido para o curso de mestrado da Escola de Jornalismo da Columbia University. Contato: ptoledo2002@hotmail.com; pablo.toledo@ig.com.br

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