Como mulher afro-indígena vivendo com HIV, vejo de perto a invisibilidade e as dificuldades enfrentadas pelos povos indígenas nas políticas de HIV/Aids. A prevenção quase não chega, e muitos só recebem o diagnóstico de forma tardia, quando a infecção já evoluiu para a aids, resultando, muitas vezes, em óbitos evitáveis.
Ainda existem grandes desafios na notificação e, principalmente, na subnotificação dos casos, o que mascara a real dimensão da epidemia entre esses povos. A precariedade das condições de vida, as tomadas de territórios, as barreiras geográficas, linguísticas e culturais, além da discriminação, ampliam a vulnerabilidade e dificultam o acesso aos serviços de saúde.
É urgente que a política de HIV/Aids olhe com mais atenção para os povos indígenas, garantindo sua participação ativa na construção dessas estratégias. É preciso respeitar suas culturas, suas ancestralidades e assegurar materiais informativos em suas próprias línguas, para que o cuidado, a prevenção e o direito à vida alcancem todos de forma justa e digna.
Também é fundamental que os governos municipais, estadual e federal se somem e apoiem iniciativas que fortaleçam esse debate. Com o intuito de realizar debates importantes no Brasil, nos dias 24 e 25 de julho de 2026, povos indígenas de todo o mundo se reunirão no Rio de Janeiro para a 11ª Pré-Conferência Internacional Indígena sobre HIV e AIDS (IIPCHA 2026), realizada antes da AIDS 2026. A IIPCHA segue como uma poderosa expressão da autodeterminação indígena na saúde global — pelos povos indígenas e para os povos indígenas.
Com o tema “Nosso Mundo. Nossos Caminhos. Nossa Visão.”, a IIPCHA 2026 dialoga com o tema da AIDS 2026, “Repensar, Reconstruir, Ascender”, ancorando-se na ciência indígena ancestral — saberes que orientam formas próprias de observar, compreender relações e promover cura.
A Pré-Conferência apoiará a construção de uma nova visão estratégica global indígena para o enfrentamento do HIV, da tuberculose, da malária e de outros agravos, priorizando a liderança indígena, a pesquisa conduzida pelas comunidades e o uso ético de dados desagregados, guiados por protocolos indígenas. Será realizada em formato presencial e híbrido, com tradução em português, inglês e espanhol, garantindo ampla acessibilidade.
A colaboração entre povos indígenas, organizações, coletivos de mulheres, grupos de redução de danos, pesquisadores comunitários e parceiros governamentais é essencial para garantir que esse espaço reflita as realidades locais, os direitos e as prioridades dos povos.
Entre seus principais objetivos estão: compartilhar saberes e fortalecer estratégias globais lideradas por indígenas; ampliar o controle indígena sobre dados e pesquisas; qualificar a produção de informações que respeitem as especificidades de cada povo; fortalecer lideranças e redes de solidariedade; e enfrentar fatores estruturais como estigma, discriminação, racismo e violência de gênero.
Para fortalecer esse momento histórico e potente no Brasil, a Political Management of Indigenous Leadership with Communities, Alliances and Networks (CAAN), juntamente com o Comitê Organizador e seus parceiros internacionais, convida organizações indígenas, lideranças, anciãos, jovens, pesquisadores e aliados brasileiros a se engajarem na IIPCHA 2026, participando e apoiando essa mobilização, para garantir que as respostas globais ao HIV e à saúde continuem sendo conduzidas com respeito, autonomia e enraizadas na visão coletiva dos povos indígenas.
* Professora, militante e redutora de danos, Evalcilene vive com HIV há mais de duas décadas. Ao longo desse período, transformou sua própria história em uma atuação constante na defesa das pessoas vivendo com HIV — especialmente das mulheres.
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