Beatriz Rizek
Os temas transversais em educação têm dado muito trabalho aos professores, de forma geral. Na acepção da palavra, transversal significa, segundo o dicionário Houaiss, “que cruza, atravessa; oblíquo”. Simplificando e usando uma discreta licença poética, os temas transversais são todos aqueles que fogem às disciplinas estanques e fragmentadas das escolas e também ao conhecimento de quem educa, sejam pais ou professores. São temas que atingem a sociedade, as famílias e toda e qualquer forma de organização humana.
Independente de ser um tema transversal, normalmente, doenças graves como a AIDS podem não cruzar diretamente o nosso caminho, mas são exaustivamente retratadas pela mídia não apenas sob a ótica jornalística, mas, principalmente, alertando para sua importância no âmbito da saúde pública e da informação correta.
Em nome de uma cultura de paz, a diversidade é valorizada, acreditando-se que isso possa neutralizar a natureza preconceituosa (e até bélica) do ser humano. No entanto, para assegurar, minimamente, o comportamento não preconceituoso, o homem precisa de leis, de estatutos, de deliberações resultantes de fóruns locais e mundiais, de conferências nacionais e internacionais… enfim… sozinho, parece que dificilmente ele se liberta dos preconceitos de forma a atuar em prol da diversidade. Políticas de inclusão cumprem com essa função social. A famosa inclusão digital, que defende o acesso aos meios tecnológicos de comunicação, especialmente o computador e a internet, traz consigo a rica oportunidade de disseminar informações sérias, verdadeiras e confiáveis.
O portador (ou a portadora) do vírus da AIDS é uma pessoa fortalecida pelo desejo de viver com dignidade, tornando públicas suas carências, necessidades e medos, ao contrário de muita gente que faz de tudo para escondê-los ou mantê-los arquivados em consultórios médicos. A internet, por meio de comunidades virtuais espalhadas pelo mundo ou por meio de instituições de amparo aos portadores do vírus, é um potencial aliado na defesa da diversidade aliada à inclusão sociodigital.
Inicialmente, usando a internet, é até possível que esta pessoa prefira não se identificar; porém, à medida que vai interagindo com seus pares e sendo acolhida, tende a se revelar. Nesse momento, sua auto-estima é recuperada, bem como sua crença na vida e nos avanços tecnológicos e científicos. Desde sempre a humanidade marginaliza os “diferentes” obedecendo a várias categorias: gênero, idade, profissão, personalidade, origem social, capacidade intelectual, padrão de beleza, etnia…a lista é interminável. A internet, com seus inúmeros recursos de comunicação remota e em tempo real, quebra essas práticas de apartheid, convidando a todos a se manifestarem e se integrarem, ainda que obedecendo às regras próprias do meio, as net-etiquetas. Mas o que importa é que, desta vez, neste meio riquíssimo, a pessoa infectada pela AIDS pode falar, brincar, mandar foto, namorar, trabalhar e conhecer outras pessoas, entendendo e aceitando que elas é que são diferentes dele, já que muito poucas sabem e sentem, na pele, o que é estar vivo a cada dia e pronto para atuar no mundo de forma sensível e humanitária.
Beatriz Rizek é pesquisadora e coordenadora pedagógica da Escola do Futuro da USP e mestranda pela Escola de Comunicações e Artes da USP.
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