Adriano Brandão
Em 1997, o Grupo Pela Vidda, de São Paulo, organizou a primeira seleção de filmes orientados para o tema. Inédita, a iniciativa surgia num momento em que se fazia necessário um balanço do período talvez mais desastroso da epidemia, seja pela escala ascendente do número de pessoas infectadas, seja pelo desconhecimento sobre a doença, acompanhado do descaso na prevenção. Enfim, era um quadro aterrorizante que o cinema ainda retratava de forma tímida. Tanto assim que Hollywood só despertaria oficialmente para o tema três anos depois com Filadélfia. Como acontece habitualmente aos temas polêmicos ou mesmo tabus, coube à produção independente — incluindo nesta classificação a produção européia, em geral mais aberta e arejada — o desafio de fustigar o tão dramático assunto.
Dessa tarefa resultaram títulos vigorosos de todos os gêneros: documentários, dramas, melodramas, musicais e mesmo comédias românticas que propiciavam uma visão menos dura da realidade dos soropositivos. Em 1986, por exemplo, o canadense Denys Arcand manifestou sua preocupação com um mal desconhecido em Declínio do Império Americano, suspeita que se consolidaria com Meu Querido Companheiro<°i> quatro anos depois, uma fita americana que se consolidou como paradigma da primeira geração de gays infectados pelo vírus HIV. Esses e mais 21 filmes integraram a segunda edição da mostra, que revelou um fato inquietante.
Num espaço de sete anos, pouquíssimos e pontuais projetos cinematográficos investiram num retrato da Aids. Títulos foram reprisados e só alguns adicionaram novas perspectivas. Em parte, tal situação se explica pelo paulatino desaparecimento da Aids do centro dos debates, tornando-se um tema cada vez mais circunscrito às comunidades até então ditas de risco, e, portanto desinteressante para as grandes platéias. Nesse período também a epidemia mudou de configuração: não era mais o “câncer gay”, rótulo estigmatizante inicial, e sim um grave problema de saúde pública que veio para ficar e que pode atingir qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. O cinema, então, precisava adaptar-se, encontrar as novas caras da doença e as formas de abordá-la. Enfim, conhecer melhor o inimigo e considerá-lo um fator do cotidiano.
Esta é a boa notícia que nos traz a terceira edição do Cinema Mostra Aids. Não é necessário voltar mais do que cinco anos para descobrir novidades nas telas sobre a Aids em suas diversas representações. Há desde investigações perturbadoras e explícitas como as de Louise Hogarth e seus documentários O Presente, sobre a polêmica decisão de contrair voluntariamente o vírus HIV, no chamado barebacking e Alguém ainda morre de Aids?, cujo título já expressa o ponto de partida da fita, até os dramas de ficção que representam o contingente cada vez maior de soropositivos que vivem com relativa tranqüilidade sob a ação de coquetéis, caso dos sensíveis Dias, de produção italiana e A Família de Felix, de origem francesa.
Uma geração de filmes que se permite, inclusive, sacudir uma evidência estabelecida sobre a doença voltando-se ao seu foco, a exemplo do polêmico documentário O Outro Lado da Aids, que põe em xeque o vírus HIV como agente causador da Aids. Nesse painel democrático de abordagens, a Aids transformou-se em recurso até para um thriller na linha que Hollywood tanto banalizou, mas que dificilmente sairia de um de seus estúdios. Em O Prazo Final, o formato independente permite ao diretor Tony Piccirillo jogar com a vida de dois homens, um a procura de vingança, outro na expectativa de um exame de sangue que lhe salve da morte.
Além dos destaques da Mostra que conta com a pré-estréia nacional do filme Rent – Os Boêmios, primeira adaptação da famosa peça da Broadway para o cinema, e Transit, primeiro longa-metragem produzido pela Staying Alive / MTV Networks International para a televisão, há filmes que abordam a caótica realidade da epidemia no continente africano, entre eles Yesterday, o primeiro filme na língua Zulu, indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2004, além de House of Love e Wa N ‘Wina. Alguns títulos revelam a situação das crianças que vivem com HIV ou daquelas que passaram a ser chamadas de órfãos da Aids como Pequenos Guerreiros e O Dia em Que Meu Deus Morreu.
A temática homossexual em tempos de Aids também está presente na programação nos filmes Filhote, A Família de Felix, Dias e Eu Amo Esse Homem. Aspectos da epidemia globalizada são enfocados no inédito filme A Closer Walk, documentário tocante narrado por Glenn Close e Will Smith e no documentário Pandemia : Enfrentando a Aids.
A produção nacional está representada pelos longas-metragens Cazuza, Carandiru e também pelo documentário Borboletas da Vida. A programação conta ainda com grandes produções que foram sucesso de público, a exemplo de As Horas, Tudo Sobre Minha Mãe e O Jardineiro Fiel. Este último, produção de 2005 sob a direção do brasileiro Fernando Meirelles e ganhador do Oscar 2006 de melhor atriz coadjuvante (Rachel Weisz), é um drama que denuncia os ensaios clínicos da indústria farmacêutica no continente africano.
São produções que não só trazem respostas e perplexidades do cinema frente à Aids, mas também alertam para a necessidade da prevenção e da eliminação do preconceito e testemunham as dificuldades e desafios do viver com HIV em nossa sociedade. Fica a certeza de que a representação diversificada pelo cinema colabora para formar uma imagem mais atualizada e realista, uma das muitas tarefas a que se propõe, em seus 17 anos de luta, o Grupo Pela Vidda São Paulo.
Adriano Brandão é membro do Grupo Pela Vidda – SP e coordenador da III Cinema Mostra Aids
Telefone do Pela Vidda-SP: (0XX11) 3258-7729 e 3259-2149
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