O ano mal começou e a ciência não para. A busca continua por melhores ferramentas de prevenção do HIV que realmente respondam às necessidades das pessoas, por tratamentos mais fáceis de acessar e manter, e por avanços rumo a uma cura e uma vacina. Nos corredores do CROI 2026, muitos descreveram este como “o melhor CROI até agora”. Não porque os dados impressionassem, mas por algo mais profundo. Havia força coletiva no ar. Havia honestidade. Havia disposição para questionar os resultados, corrigir o rumo e continuar.
A ciência não é sagrada porque nunca falha. Ela é poderosa porque sabe admitir quando falha. Estar no CROI 2026 já é significativo por si só. A presença de representantes da comunidade neste espaço é importante. Mas também precisamos ser honestos: as comunidades ainda não estão sentadas à mesma mesa que os pesquisadores nas principais discussões científicas. Nos últimos anos, vimos gestos importantes. A participação da comunidade na abertura da sessão de Jovens Pesquisadores no Workshop Scott Hammer.
Maior visibilidade. Inclusão simbólica. Essas etapas são importantes. Não precisamos de momentos isolados da comunidade. Precisamos de responsabilidade compartilhada. Comunidades e pesquisadores devem trabalhar lado a lado, não em mundos paralelos. Isso significa envolver as comunidades desde o início do planejamento do estudo, ouvi-las atentamente durante a interpretação dos dados e incluí-las nos processos de tomada de decisão que moldam os resultados no mundo real.
A ciência não é um espaço puro ou neutro que opera fora da sociedade. Ela é moldada por prioridades, estruturas de financiamento, culturas institucionais e as realidades vividas por aqueles que busca servir. Reconhecer isso não enfraquece a ciência. A fortalece. Quando as comunidades estão envolvidas de forma significativa, as questões de pesquisa se tornam mais precisas. A interpretação se torna mais fundamentada. As decisões se tornam mais responsáveis. E os resultados têm muito mais probabilidade de se traduzirem em impacto para além da sala de conferências.
Estamos vivendo um período marcado pela incerteza e pela ascensão do negacionismo. Um período em que a ciência é questionada justamente quando mais precisamos dela. Ao mesmo tempo, estamos testemunhando progressos reais na pesquisa sobre prevenção, tratamento e cura do HIV. No entanto, progresso por si só não é impacto. A inovação científica precisa se tornar real na vida das pessoas. Real em diversas realidades comunitárias. Real em contextos moldados pela desigualdade, estigma, criminalização e barreiras estruturais.
E não podemos ignorar o que está acontecendo além dos muros da conferência. Espaços que as comunidades lutaram para construir ao longo de décadas estão sendo desmantelados. Cortes de financiamento. O fim dos programas da USAID. Ameaças ao PEPFAR. Essas mudanças afetam os fluxos de pesquisa. Mas, mais urgentemente, afetam as comunidades que precisam inovar constantemente apenas para sobreviver e continuar prestando cuidados. Nesse contexto, um dos pontos fortes duradouros do CROI é o Martin Delaney Palestra Comunitária. Este ano, Peter Staley, ativista do ACT UP, cofundador do Treatment Action Group (TAG) e cofundador e presidente do conselho da PrEP4All, subiu ao palco e nos lembrou de uma verdade que nunca deve ser amenizada: o ativismo salva vidas. Sua presença não foi cerimonial.
Não foi nostalgia. Foi história viva no presente. Os tratamentos que discutimos, as políticas que debatemos, os padrões que agora consideramos garantidos foram moldados porque os ativistas se recusaram a aceitar atrasos, exclusão ou silêncio. Vê-lo ao lado de cientistas renomados foi impactante não porque simbolizava harmonia, mas porque refletia a realidade. O ativismo nunca esteve fora da ciência. Ele impulsionou a ciência a avançar mais rápido, a ser mais ética, a ser mais responsável. É acesso. É expertise. É liderança. Durante o simpósio sobre tratamentos de longa duração, vozes da comunidade levantajaram algumas das questões mais urgentes: Quem terá acesso? Como os sistemas de distribuição funcionarão em contextos com poucos recursos? Quais barreiras moldarão a viabilidade no mundo real? Essas não são preocupações secundárias. Elas são fundamentais para que a ciência se traduza em saúde. Esta é a mensagem central: Comunidade não é decoração.
Esta é a mensagem central: Comunidade não é decoração. Comunidade é estrutura. Quando as comunidades estão envolvidas, a pesquisa se torna mais ética. Os estudos se tornam mais representativos. A implementação se torna realista. A confiança cresce. Além do CROI 2026, a questão não é mais se a ciência pode avançar. É se ela avançará com equidade, com poder compartilhado e com a coragem de tornar a inovação real na vida daqueles que precisam dela.
* Luciana Kamel é defensora da comunidade e candidata a doutorado em Saúde Coletiva, [IMS/UERJ], Brasil
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