A CRIANÇA É O REMÉDIO DO HOMEM CONTRA A MORTE – Acácio Sidinei Almeida Santos – Doutor em Sociologia pela USP – Vice Coordenador da Casa das Áfric

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Acácio Sidinei Almeida Santos

O mais recente relatório da UNAIDS (Órgão das Nações Unidas para a Aids) indica que 25 milhões de mulheres, homens e crianças estão infectados pelo HIV na África subsaariana e, entre os países de língua oficial francesa da África do Oeste, a Costa do Marfim é certamente o que mais óbitos ocasionados pela Aids acumulou desde o início reconhecido da epidemia nos anos 80 até o fim de dezembro de 2003, mais de 420 mil mortes.

O combate à infecção pelo HIV, com uma prevalência estimada em 10% da população geral e 15% das mulheres grávidas de Abidjan, capital econômica do país, o tratamento contra a Aids e a malária constituem na atualidade as grandes prioridades nacionais na área de saúde.

Embora muitos dos problemas relacionados às formas de contágio e disseminação do HIV sejam de fato semelhantes em diferentes sociedades, a definição desses problemas, tal como o leque de soluções institucionais e a conseqüente dinâmica institucional variam muitas vezes substancialmente nas diversas sociedades, sobretudo em função dos aspectos simbólicos e históricos que servem para construir as representações em torno da doença e da saúde.

Durante a pesquisa que realizei na Costa do Marfim entre 2000 e 2002, interessou-me entender as formas pelas quais a sociedade Agni exterioriza os fatores básicos da consistência social e a visão de mundo que a orienta.

Foi no desejo de encontrar algumas respostas que resolvi primeiramente buscar compreender a organização social, política e econômica da localidade, a noção de pessoa e as representações de saúde e de doença entre os Agni da localidade Andé para somente então depois explorar a problemática do HIV/Aids na localidade.

As entrevistas que fiz com os Agni indicaram a existência de uma visão muito particular sobre o HIV/Aids, as diferentes formas de transmissão, os cuidados, as práticas, os comportamentos e as atitudes. Para muitos, a Aids é uma doença antiga, que foi rebatizada Aids pela medicina moderna. Para outros, a Aids é o já conhecido “Babazru”, nome dado pelos Agni para algumas doenças sexualmente transmissíveis. Mesmo reconhecendo a transmissibilidade através de substâncias vitais como o esperma, a idéia central que explica a transmissibilidade se apóia nas práticas de bruxaria.

Penso que a Organização Mundial da Sáude, as Organizações não Governamentais e o próprio governo marfinense terão que repensar suas estratégias considerando os valores civilizatórios – força vital, palavra, noção de pessoa, socialização, família, produção, poder e morte – que orientam o saber/fazer Akan-Agni Morofoé, por exemplo.
Nesse sentido, o trabalho de campo junto aos Akan-Agni Morofoé de Andé foi imprescindível para a compreensão de parte do sentido da epidemia do HIV/Aids naquela localidade e, embora acredite na capacidade ótima das sociedades negro-africanas de transformarem em fases e não em totalidades os impactos decorrentes de processos desestabilizadores e desestruturadores, vejo na epidemia do HIV/Aids um real desafio para a vida no continente em sua plenitude. Quando falo em plenitude estou pensando em “Mendilé”, palavra que em alguns grupos Akan, significa literalmente “comer o mundo”, apropriar-se dos recursos exteriores que asseguram e fazem prosperar a existência. Para os Akan a vida, além de um valor em si mesma, é também o recurso para outros valores e a finalidade e a razão de ser de todas as atividades ligadas ao conhecimento e à economia justificando, por exemplo, a importância que tem a sexualidade, a procriação e a maternidade, seus atores (homem-mulher) e instituições como o casamento e a poligamia. Por isso afirma o provérbio Akan: “a criança é o remédio do homem contra a morte”.

O preservativo, por exemplo, além de ser um objeto estranho à realidade social Agni Morofoé e à realidade social da África subsaariana é também um elemento revelador do gênero e da sexualidade, concentrando paradoxos e contradições sobre a prevenção e reorganiza os espaços sociais e intercorporais interferindo diretamente nos limites do corpo e nas dimensões sociais, sobretudo por ser um obstáculo simbólico e físico à procriação e ao prazer sexual. Não basta apenas discutirmos o uso de preservativos, temos também que discutir o potencial gerador e vital do esperma.

Somente a partir de um amplo conjunto de informações oriundas de análises realizadas em diversos níveis e levando em conta variáveis que vão da biologia e do psiquismo individual à estrutura socioeconômica, às práticas sociais e às representações da saúde e da doença, será possível estabelecer os reais fundamentos de avaliações da efetividade das ações preventivas e terapêuticas nos diferentes países e grupos atingidos pelo HIV/Aids na África subsaariana.
Nos próximos anos, mesmo que algumas ações mais eficazes sejam colocadas em prática no sentido de conter novas infecções, veremos aumentar o número de mortes, avançando das zonas urbanas em direção às zonas rurais.

A meu ver, a família tem um importante papel frente a epidemia, sobretudo no cuidado dos doentes. Enquanto a família nuclear se vê impossibilitada de responder às demandas da epidemia, a família extensa é uma resposta possível, desde que apoios suplementares sejam fornecidos pelos conselhos locais.

Os conselhos locais formados pelos líderes da comunidade – chefe, notáveis, chefes de família, representantes dos jovens e das mulheres – terão um papel vital no desenvolvimento de estratégias de combate à epidemia e na interlocução com o Estado, forçando-o na adoção de medidas que beneficiem a população infectada e não-infectada.

Em Andé, o envolvimento dos chefes de família no tratamento contra a tuberculose é um exemplo da importância que pode ter o envolvimento de determinadas pessoas, em função do seu status dentro do grupo, nas campanhas.

Acácio Sidinei Almeida Santos é Doutor em Sociologia pela USP, vice-coordenador da Casa das Áfricas; pesquisador de África, com trabalho de campo desenvolvido na Costa do Marfim; professor da Universidade de Santo Amaro.

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