A CONTRIBUIÇÃO DO JORNALISMO NO DESAFIO DA AIDS – Marcus Fuchs – Diretor de Planejamento da ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Marcus Fuchs

No Brasil, o perfil da AIDS sofreu significativas mudanças desde o seu início. Atualmente, além da sua incidência entre a população heterossexual, com um crescimento maior entre as mulheres e ampla disseminação dos novos casos para as cidades de médio e pequeno porte (atualmente cerca de 3.702 municípios do país têm pelo menos um caso de AIDS notificado – cerca de 60% do total), há também incremento substancial de afetados entre as populações de baixa renda e com menor grau de escolaridade (atualmente mais de 60% dos casos de AIDS são registrados entre analfabetos e pessoas com até 8 anos de escolaridade).

Ao mesmo tempo, segundo os dados do estudo Radar Social realizado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) e divulgado no dia 01 de junho de 2005, 53,9 milhões de brasileiros (ou 31,7% da população) são pobres (dados de 2003) e, destes, 21,9 milhões estão na faixa dos indigentes”, com renda per capita de um quarto do salário mínimo mensal. Isso posiciona o Brasil numa lista de 130 países no penúltimo lugar em distribuição de renda, ficando atrás apenas de Serra Leoa. Então, a pergunta que fica é: como o Brasil mantém os indicadores de desigualdade e pobreza há décadas e há incremento substancial de afetados pela AIDS entre os pobres, conseguiremos ter no país o controle da disseminação da AIDS?

Uma possível busca de solução para essa pergunta passa pelo compromisso dos meios de comunicação com essa agenda. Assim como o enfrentamento da epidemia da AIDS hoje deve estar cada vez mais centrado na necessidade de uma abordagem multissetorial e que supere a percepção da questão apenas do ponto de vista da saúde, os meios de comunicação podem (devem!) abordá-la de maneira cada vez mais contextualizada e que contribua para que a sociedade apreenda visões mais completas da questão. Os resultados das ações de monitoramento e análise da mídia realizadas pela ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância) nas temáticas relativas às crianças e aos adolescentes – entre elas a AIDS – comprovam que os profissionais de comunicação estão cada vez mais disponíveis e dispostos a abordar as temáticas com maior diversidade de fontes, com maior contextualização, com abordagens mais críticas; enfim, com elementos que mobilizem a sociedade para a superação das mazelas do país. Se esse comportamento fizer, cada vez mais, parte da linha editorial dos veículos, será ainda mais poderoso.

Na relação Mídia & AIDS, a ANDI vem desde 1997 promovendo ações de apoio ao trabalho dos jornalistas: sugestões de pautas, apresentação de iniciativas da sociedade civil e dos governos na busca de soluções para os problemas relacionados à temática, realização de oficinas de interação de jornalistas e fontes de informação, publicações. Ainda que tecnicamente complexa de ser coberta e limitada em relação à quantidade de ganchos factuais inspiradores de novas pautas, a AIDS pode (deve!) ser abordada com interface em outras áreas – como situação sócio-econômica, gênero, sexualidade, família, educação afetivo-sexual, gravidez. Assim, as oportunidades para sua presença nos veículos de mídia crescem. Em a pauta crescendo e se qualificando, o fazer jornalístico passa a ser uma contribuição concreta para a prevenção e o tratamento da AIDS.

Marcus Fuchs é Diretor de Planejamento da ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância
Tel.: (0XX61) 2102-6508

Apoios