A cidadania continua. Roseli Tardelli é editora executiva da Agência Aids

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Todo o pessoal envolvido na preparação do Camarote Solidário acorda bem cedo no domingo da Parada LGBT. Mas bem cedo mesmo: tem gente que salta da cama às 6h, outros às 6h30, no máximo 7h. Eu costumo passar em alguma padaria por perto, compro pães, frios, sucos. Quem chegar primeiro prepara o café. A organização começa com um gostoso café da manhã, com todo mundo conversando e lembrando de histórias das edições anteriores. Depois iniciamos a árdua tarefa de encher as danadas daquelas bexigas, que vestem as 17 colunas do Mezanino do Conjunto Nacional. São mais de 500 balões, que amarramos e distribuímos direitinho. Olhamos cada detalhe. Com esse movimento, já estamos perto de 10h. Precisa ainda pegar os carrinhos, enfeitá-los e deixá-los no saguão para guardar as doações. Não pode faltar os avisos de onde estão os banheiros! Os convidados começam a chegar por volta de 12h30. O Buffet já tem de estar pronto, montado e com tudo em cima, no máximo, às 11h30. Sempre tem aquele amigo que resolve vir antes para não pegar a muvuca em que se transforma o metrô no dia da Parada.

Quero contar pra vocês, na realidade, que fazemos tudo: corremos atrás de patrocínio, produzimos a lista de convidados, a decoração do espaço! Isso sem contar com os inúmeros telefonemas que o Maurício atende e a imensidão de e-mails que responde até fechar a relação dos participantes! Ufa! Que trabalhão, mas que gostoso de ser feito! Claro, tudo temperado a um estresse absurdo! A amiga, quase irmã, Marta McBritton, do Barong, que também doou muito ar de seus pulmões para as bexigas, já me ouviu dizer mais de uma vez: “Não é possível tanto rolo. Este é o último Camarote que você está vendo a gente produzir”. Que nada! Com todas as dificuldades, correria, emoção, os “pelas” – expressão que criei e significa “pelamordedeus!!” – chegamos agora a décima edição do Camarote Solidário! A ideia de registrar essa história em uma publicação surgiu de uma conversa com Vilma, amiga e parceira de muitas jornadas. “Por que vocês não contam como trabalham estas ONGs?”, sugeriu. Aceitei. Então veio a Fátima, o Silvio, o Thiago, a Dra. Maria Clara e a Emi, que nos ajudaram a concretizar este registro.

Alegria, prazer, amor e uma pontinha de satisfação em proporcionar a possibilidade de muita gente exercitar cidadania: 11,6 toneladas de mantimentos foram arrecadadas e distribuídas nesses 10 anos! No meio da Av. Paulista, lá em cima, no mezanino do Conjunto Nacional, um grupo de pessoas amigas, que se gostam, se reúnem, se divertem e ajudam ONGs sérias da Grande São Paulo a seguir em frente com seu trabalho bonito, honrado, parceiro, digno e altruísta de ajudar pessoas que se infectaram com o vírus da aids. Auxiliar a resgatar o amor próprio, o respeito, a saúde e a vontade de viver! Nossa gratidão e nosso muito obrigado a todos que nos apoiaram na construção de mais esse capítulo, das muitas histórias que o mundo escreve na luta contra o preconceito, a discriminação, a ignorância e a desinformação que caminham juntos com a aids. Nós seguiremos sendo parceiros daquelas que querem construir vida, amor, respeito e solidariedade sempre.

Roseli Tardelli é jornalista, editora executiva da Agência de Notícias da Aids e da Agência de Notícias de Resposta ao Sida, e idealizadora do Camarote Solidário.

*Este artigo foi originalmente publicado na revista “Camarote Solidário – 10 anos”

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