Por Rodrigo Pinheiro
Todo ano, no início do mês de dezembro, deparamos com os dados socializados pelo governo sobre a epidemia de aids no Brasil. Os últimos dados apresentados foram acima do que esperávamos, principalmente com os números de novas infecções. Anos anteriores trabalhávamos com uma média de 33 mil a 35 mil novos casos, mas os dados socializados pelo Ministério da Saúde informam que, em 2009, foram 38.538 casos da doença, portanto 10% a mais do que acreditávamos.
Como podem afirmar que a epidemia continua estabilizada? Qual o número de diagnóstico tardio neste ano? Como esses casos foram diagnosticados?
Nos últimos dez anos, a incidência de casos subiu em quase todas as regiões do país, mas principalmente nas regiões sul, centro-oeste, norte e nordeste, onde a máquina pública emperra que as políticas de enfrentamento da epidemia sejam aplicadas. Não podemos mais admitir que os recursos de incentivo para combater a aids nos Estados dessas regiões fiquem parados. Falta vontade política de muitos governantes para que de fato possamos dar uma resposta melhor.
Um grande parceiro dos programas são as organizações não governamentais que não podem contribuir de maneira mais propositiva, pois os recursos destinados as suas ações não são repassados. Existem Estados que essa verba está parada há mais de cinco anos. O governo federal precisa tomar providências, pois é inadmissível que mesmo com recursos, os órgãos competentes não conseguem aplicá-los e com isso o número de casos e mortes a cada ano vem aumentando.
No Estado de São Paulo, o número de óbitos decorrente da aids continua sendo preocupante, apesar de ter tido uma pequena queda.
Nove mortes por dia continua sendo elevado, principalmente em um Estado que tem feito campanhas para estimular o diagnóstico do vírus.
Mas isso vem acarretando outro problema, os serviços estão recebendo uma demanda grande de novos casos e estão com dificuldades de fazer encaminhamentos para consulta e o acompanhamento necessário. Precisam ter estrutura e mais profissionais capacitados para atender essa nova demanda.
Precisamos ter um trabalho de sensibilização diária com a população, em especial, com as mais vulneráveis. Os Planos de Enfrentamento da Epidemia entre homens que fazem sexo com homens e mulheres necessitam ser efetivados, pois percebemos enormes dificuldades na execução desses planos.
Recentemente foi divulgado amplamente sobre a profilaxia pós exposição, mas parece que já caiu no esquecimento, pois não vejo mais comentários neste sentido e a população precisa estar sempre informada sobre novas tecnologias de prevenção, bem como o acesso facilitado aos insumos como preservativos masculinos, femininos e gel lubrificante.
Na campanha presidencial, uma carta de compromisso para o combate da aids, reconhecendo que a epidemia continua sendo um problema de saúde pública, foi assinada pela presidente eleita Dilma Rousseff. Isso foi um marco para o movimento social, e esperamos e vamos cobrar para que de fato este compromisso seja firmado. Ainda mais agora com a recente declaração do Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, de que esta carta será o plano de governo na área da aids enquanto ele for o chefe da pasta da Saúde.
O Movimento de Luta contra aids trabalhou arduamente em 2010 e vamos trabalhar ainda mais em 2011, fazendo o nosso papel e esperamos que os governos em todas as esferas assumam seus compromissos e que com isso possamos em anos próximos termos dados mais animadores.
Rodrigo Souza Pinheiro é presidente do Fórum de ONG/Aids do Estado de São Paulo.
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