8 de Março: investir nas mulheres é salvar vidas

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O Dia Internacional da Mulher sempre me faz pensar sobre o quanto nós, mulheres, precisamos ser fortes para simplesmente existir. Não é apenas sobre celebrar conquistas. É sobre lembrar que ainda lutamos diariamente para sobreviver, para sermos respeitadas e para termos as mesmas oportunidades que os homens.

Eu sou uma mulher que vive com HIV. E também sou uma mulher que luta. Como ativista do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, conheço de perto as histórias de tantas outras mulheres que, assim como eu, carregam não apenas o peso do diagnóstico, mas também o peso de uma sociedade que insiste em nos colocar em desvantagem.

Muitas mulheres descobrem o HIV dentro de relações marcadas por desigualdade. Relações em que não tiveram poder para negociar o uso do preservativo. Relações atravessadas por violência, abandono ou traição. Outras recebem o diagnóstico depois de sofrer violência sexual. Quando falamos de mulheres vivendo com HIV, precisamos ter coragem de dizer: muitas vezes, a infecção também é consequência das violências de gênero.

E violência contra a mulher não é um tema isolado. Ela começa no desrespeito cotidiano, passa pelo controle sobre nossos corpos e chega à forma mais brutal de todas: o Feminicídio.

Mas existe também uma violência silenciosa, estrutural, que muitas vezes passa despercebida. É a violência da desigualdade de oportunidades.

Quando um homem recebe uma oportunidade de trabalho, muitas vezes ele simplesmente coloca a mochila nas costas e vai. A mulher não. Antes de sair de casa, ela precisa resolver uma série de problemas: quem vai cuidar dos filhos? Existe creche? Há alguém que possa ajudar? Como conciliar o trabalho, o estudo, a casa e a maternidade?

Essa diferença parece pequena para quem olha de fora. Mas é ela que impede milhares de mulheres de estudar, crescer profissionalmente e conquistar autonomia.

Por isso, quando eu falo em investir nas mulheres, não estou falando de um discurso bonito. Estou falando de políticas públicas reais.

É preciso investir em educação, mas também garantir condições para que as mulheres permaneçam estudando. O Exame Nacional do Ensino Médio abriu portas importantes para o acesso à universidade. Mas muitas mulheres não conseguem atravessar essa porta porque não têm com quem deixar seus filhos.

De que adianta oferecer acesso à faculdade se não existe creche?
De que adianta falar em igualdade se as mulheres seguem carregando sozinhas o peso do cuidado?

Investir nas mulheres também significa investir em proteção contra as violências. Significa criar políticas eficazes para prevenir feminicídios, combater o estupro, acolher vítimas de violência e garantir acesso à saúde, à informação e à prevenção do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis.

Quando uma mulher sofre violência sexual, por exemplo, ela não precisa apenas de acolhimento emocional. Ela precisa de acesso rápido a serviços de saúde, à prevenção das infecções e a uma rede de proteção que garanta que aquela violência não se repita.

Mas também é preciso romper com um discurso que coloca as mulheres apenas no lugar da vítima. Mulheres têm vida sexual, têm desejo e têm o direito de viver sua sexualidade com liberdade, informação e proteção.

Por isso, ampliar o acesso real aos insumos de prevenção é fundamental. Ferramentas como a PrEP ainda chegam a poucas mulheres, seja pela falta de informação, seja pelas barreiras dentro dos próprios serviços de saúde. Falar de prevenção para mulheres também é reconhecer nossa autonomia sobre o próprio corpo e nosso direito de decidir como queremos nos proteger.

Nós não somos apenas estatísticas da violência. Somos sujeitos de direitos. E garantir acesso à prevenção também é garantir que possamos viver nossa sexualidade com dignidade, segurança e liberdade.

Tudo isso exige algo muito concreto: recursos. Orçamento. Compromisso político. Nós, mulheres, não precisamos de discursos vazios. Precisamos de investimento real.

Investir nas mulheres é garantir transferência de renda para que elas tenham autonomia. É ampliar creches públicas. É fortalecer políticas de saúde. É garantir educação de qualidade. É criar ferramentas eficazes para enfrentar as violências que nos atingem diariamente.

E investir nas mulheres que vivem com HIV também significa reconhecer nossa força. Muitas de nós transformamos nossas histórias em militância, em cuidado coletivo, em luta por direitos. Não aceitamos mais o silêncio, o estigma ou a invisibilidade.

Neste Dia Internacional da Mulher, eu não quero apenas homenagens. Eu quero compromisso.

Quero que a sociedade e os governos entendam que investir nas mulheres não é gasto. É a forma mais inteligente e justa de construir um país melhor.

Porque quando uma mulher tem oportunidades, ela não transforma apenas a própria vida. Ela transforma a vida da sua família, da sua comunidade e das próximas gerações.

Valorizar e investir nas mulheres é, no fundo, investir em toda a sociedade.

E nós já mostramos muitas vezes: quando nos dão condições, nós mudamos o mundo.

* Silvia Aloia é Secretária Nacional do Movimento das Cidadãs Posithivas.

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