O ano de 2025 ficará marcado para toda a comunidade de ativistas, cientistas e gestores dedicados à luta contra o HIV/aids no Brasil como o ano da eliminação da transmissão vertical do HIV — um avanço decisivo rumo à eliminação da epidemia como problema de saúde pública no país. Esse marco coincide com os 40 anos da resposta nacional à epidemia de HIV/aids e simboliza a força dessa trajetória.
A certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV, que deverá ser reconhecida pela Organização Mundial da Saúde nas próximas semanas, reforça dois pilares da resposta brasileira: a prevenção da transmissão do vírus para quem não vive com ele — neste caso, os bebês de mães vivendo com HIV — e a garantia de qualidade de vida para as pessoas vivendo com HIV/aids (PVHA) que desejam ter filhos com segurança, sem risco de transmissão.
Em ambos os campos, temos muito a celebrar nesses 40 anos de resposta. Na prevenção, evoluímos de uma política centrada em preservativos e campanhas educativas para a prevenção combinada, que reúne estratégias biomédicas, comportamentais e estruturais, aplicadas nos níveis individual, comunitário e social, sempre com foco na saúde integral, nos direitos humanos e no respeito às especificidades de cada pessoa e grupo. Entre essas alternativas, merece destaque a profilaxia pré-exposição (PrEP), que tem conquistado grande adesão entre populações sob maior risco de infecção. Desde 2023, o número de usuários cresceu mais de 150%, e hoje mais de 140 mil pessoas utilizam a PrEP diariamente.
No campo da qualidade de vida das PVHA, os avanços foram enormes. Nos anos 1980, não havia tratamentos eficazes. Depois vieram os primeiros antirretrovirais (ARV), conhecidos como “coquetéis”, que somavam dezenas de comprimidos por dia. Hoje, é possível manter a carga viral indetectável com apenas um comprimido diário, que combina duas drogas. Entre as cerca de 900 mil PVHA em tratamento no Brasil, mais de 25% já utilizam essa terapia simplificada, e mais de 80% fazem uso de esquemas com até dois comprimidos por dia. Além da praticidade, os tratamentos atuais são muito mais seguros, com menos efeitos adversos e menor toxicidade.
Também houve avanços notáveis no diagnóstico. Se antes os exames confirmatórios, como o Western Blot, podiam levar semanas, hoje contamos com testes rápidos de alta precisão e auto-testes, que permitem diagnóstico e início do tratamento no mesmo dia. Atualmente, 59% das PVHA iniciam o tratamento em até 30 dias após o diagnóstico, e 22% já começam no mesmo dia.
Graças a esses progressos, o Brasil atingiu duas das três metas do UNAIDS*: 95% das pessoas vivendo com HIV foram diagnosticadas e 95% das PVHA em tratamento alcançaram carga viral indetectável. Como consequência, o país registrou a maior queda já observada na mortalidade relacionada à aids em toda a série histórica da epidemia, tanto em números absolutos quanto em percentual, segundo o Boletim Epidemiológico da Aids divulgado neste 1º de dezembro.
O grande desafio que a resposta brasileira ainda tem a superar é alcançar a terceira meta: garantir que 95% das PVHA diagnosticadas estejam em tratamento. Essa não é uma barreira biomédica, mas sócio, econômico e cultural. Mesmo após 40 anos de resposta, o estigma e o preconceito ainda afastam quase 15% das pessoas que conhecem sua sorologia do tratamento. Seja pela dificuldade de acesso das populações mais vulnerabilizadas, seja pelo medo da discriminação. Este é o maior obstáculo a ser superado.
A campanha lançada pelo Ministério da Saúde neste Dia Mundial de Luta contra a Aids — Nascer sem HIV, viver sem aids — simboliza o compromisso contínuo do país. Ela celebra conquistas, mas também lembra dos desafios, traz relatos das PVHA que superaram o medo, o preconceito, as barreiras de acesso, e hoje vivem suas vidas como quaisquer outras pessoas. Lembram que é possível viver com qualidade, ter filhos sem a infecção, viver com o HIV sem ter aids, mas sem esquecer que o preconceito é a maior barreira a estas conquistas.
As inovações tecnológicas vêm sendo incorporadas uma a uma, ano após ano. O Brasil já oferece na rede pública de saúde, no SUS, todas as tecnologias de ponta disponíveis nos países ricos. Novas tecnologias virão. Os antirretrovirais injetáveis de longa duração virão, mas tudo isso não será suficiente se os princípios do SUS, que também celebra 35 anos, não forem respeitados: Universalidade, Integralidade e Equidade. Estas são as “palavras mágicas” que precisam caminhar juntas com os avanços da resposta brasileira nos 40 anos da epidemia de aids, para que todas as tecnologias biomédicas e sociais da resposta brasileira cheguem a quem mais precisa.
Com esse compromisso, estaremos cada vez mais próximos de eliminar a aids como problema de saúde pública — talvez até antes de 2030.
* Os dados do MS e do Unaids têm pequenas diferenças, mas ambos mostram que o Brasil alcança duas das três metas 95/95/95 dentro dos intervalos de confiança.
** Dr. Draurio Barreira é diretor do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde.
Apoios




