29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans. Carla Amaral é fundadora do Transgrupo Marcela Prado, de Curitiba

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Por Carla Amaral

Visibilidade ou Invisibilidade? Vivemos numa sociedade hipócrita que insiste em invisibilizar uma população que todos os dias é visível e apontada por seus olhares, gestos e atitudes, mas sofre da discriminação e da exclusão, em todos os espaços, de forma brusca e violenta. Esta sociedade dá às travestis e transexuais a visibilidade com apontamentos negativos, contribuindo para que nossos direitos sejam negados, simplesmente pelo fato de sermos reais, de carne e osso, pessoas que temos família, amigos, sentimentos de alegria e dores.

Dores essas que se potencializam no exato momento que esta sociedade nos aponta como marginais, pessoas doentes, não qualificadas, estigmatizando a cada instante uma população que busca viver igualitariamente, com os mesmo deveres e direitos, pois somos pagadores de impostos e contribuímos para o bem estar de todos, sem julgamento ou discriminação de cor, raça, credo, sexo e orientação sexual. Ainda assim somos julgadas por “agredirmos a moral e bom costumes” de uma sociedade hipócrita.

Travestis e transexuais sentem na pele toda a fúria da não compreensão de pessoas que, no conforto do seu gênero e orientação, não conseguem administrar em suas mentes o quão difícil é para nós não sermos biologicamente de um gênero e no decorrer de nossa existência nos deparamos com desejos, sentimentos e necessidades de vivenciar o oposto daquilo que esta sociedade determina como homens e mulheres, “genitalizando” seus seres, como se andássemos com nosso órgão sexual à mostra para nos determinar isto ou aquilo.

Partindo deste princípio cultural e machista, compreender a identidade de gênero das trans é ignorado, colocando estas pessoas em uma situação de vulnerabilidade, iniciado pela família que expulsa seus filhos e filhas de casa, passando pela escola que deveria, mas muitas vezes não dá a oportunidade de formação e abertura das portas para um futuro com mais cidadania, na busca de um trabalho, que sem uma boa formação se torna quase impossível em um mundo globalizado e evolutivo em todos os sentidos.

A população trans vive numa sociedade que cobra atitudes, como a não prostituição, mas que as coloca às margens, o que acaba por fazer com que prostituição muitas vezes seja a única forma de sobrevivência, se tornando então vulnerável a diversas doenças sexualmente transmissíveis, como o HIV/aids, hepatites Virais,entre outras. Estima-se que no Brasil vivam hoje meio milhão de cidadãs travestis e transexuais, sendo que 90% delas são profissionais do sexo em razão do forte preconceito que enfrentamos.

Desde 2004, no dia 29 de janeiro se comemora o Dia da Visibilidade Trans. O termo Trans é uma abreviação de travestis, transexuais e toda comunidade que vive a questão da identidade de gênero. Nesta data foi lançada no Brasil a primeira campanha publicitária pelo Ministério da Saúde para esta comunidade, um marco na visibilidade do movimento Trans Brasileiro. Em todo o país, eventos de grupos trans e outros apoiadores ocupam espaços nesta data. A campanha “Travesti e Respeito – Está na hora dos dois serem vistos juntos” mostrou diversas militantes trans com muito orgulho, exigindo respeito e plenos direitos de cidadania e como desejam serem tratadas.

Em 2010 foi lançada a campanha “Sou travesti. Tenho direito de ser quem eu sou”. A proposta foi promover a inserção social e a imagem positiva das travestis, além de disseminar o conhecimento sobre as formas de prevenção ao HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis, além do o combate à violência e à discriminação.

Em 2012, pela primeira vez, uma travesti protagonizou uma campanha de prevenção durante o carnaval. A ideia foi mostrar a sociedade que esse tipo de situação é normal e que o único problema em qualquer relação é esquecer de usar camisinha.

O estigma sofrido por esta população, porém, ainda é um dos mais injustos. A expectativa de vida média da população trans não chega aos 40 anos. Anualmente, centenas de pessoas trans são cruelmente assassinadas em nosso país devido à transfobia externada por nossa sociedade.

Há, no entanto, muitos casos de superação e esperança. Estamos aos poucos ocupando espaços, desmistificando a cultura marginalizada que a nós é atribuída. Em diversos estados brasileiros, o direito à cidadania das travestis e transexuais está sendo reconhecido em relação ao respeito do nome social. Algumas pessoas estão consquistando seu nome civil, garantindo assim de fato direitos plenos.

Dar visibilidade à comunidade trans é uma forma de recarregar as baterias nessa árdua luta e mostrar ao mundo que as trans existem e possuem direitos como todos os cidadãos.

Nós, travestis e transexuais, nos sentimos dignas e realizadas por termos a coragem de ir em busca de nossos ideias. Somos seres sublimes que conseguimos transformar a nós mesmas – mesmo que o mundo diga que estamos equivocadas – sem nos vitimizarmos e nos escondermos atrás de gêneros. Nós, travestis e transexuais, trazemos em nosso corpo a marca da transformação. Não necessitamos de bandeiras. Falamos por nós mesmas, quem somos e o que queremos. Vamos em busca de mudanças para ir ao encontro de nossa felicidade.

VIDA E DIREITOS A TODAS AS TRAVESTIS E TRANSEXUAIS DO BRASIL.

Carla Amaral, 41, é fundadora e hoje vice-presidente do Transgrupo Marcela Prado – Associação de Travestis e Transexuais da cidade de Curitiba-PR.

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