Regina Facchini
Ainda lembro como se fosse ontem, quando Lula Ramires, Denise Coelho e Paulo Giacomini começaram a dialogar com as pessoas no movimento em torno de uma idéia que tiveram numa conversa: por que não saímos às ruas de São Paulo para celebrar positivamente o orgulho de sermos quem somos, para mostrar que existimos, somos muitos e muitas, somos felizes, pessoas comuns, cidadãos e cidadãs que precisam ter garantias de vida digna respeitadas? A idéia ganhou eco e uniu vários grupos na criação de uma Comissão Organizadora da Parada do Orgulho GLT. O Corsa, o Núcleo de Gays e Lésbicas do PT, o Centro Acadêmico de Estudos Homoeróticos da USP, o Etcétera e Tal, a Associação para a Prevenção e Tratamento da Aids, o Núcleo GLTT do PSTU, o Grupo Expressão de Campinas e os Anarco-Punks integraram essa comissão, e o apoio do Mix Brasil, da Comissão Municipal de Direitos Humanos, da Casa Brande Lee e do Sindicato das Costureiras se fez presente.
No 28 de junho, pela manhã estávamos ansiosos e apreensivos: como será que vai ser? Virá alguém participar? Seremos vítimas de algum grupo intolerante? Até hoje me lembro da nossa divisão de tarefas – que me colocava na coordenação da comissão de segurança, composta por jovens, garotos e garotas anarco-punks – e sou incapaz de não me emocionar vendo uma foto da nossa Kombi branca do sindicato onde ficava o microfone para as falas e palavras de ordem e que tocava as fitas de MPB gravadas pela Denise. Tudo deu certo, a Parada aconteceu pacificamente e cresceu. Certamente, a Parada e as lembranças destes 10 últimos anos estão marcadas nos corações e nas mentes das pessoas que estão aqui hoje e fazem parte da história pessoal de cada um ou cada uma de nós.
Mas o que talvez faça da parada algo especial, é seu caráter complexo. Há um aspecto lúdico, experiencial, sensorial e celebrativo da Parada e do estar na parada, a catarse transformadora de unir-se à multidão que dança à luz do dia colorida, sob o cinza do asfalto da Avenida símbolo da maior cidade do país, para dizer “estamos aqui, somos contra o preconceito e queremos um mundo em que diferença não seja motivo para desigualdade”. Mas há um aspecto indissociavelmente político nisso tudo: a Parada é uma estratégia de mobilização política e de visibilidade positiva de uma população estigmatizada e de suas demandas, e que, além de tudo, consegue preservar o que há de diverso e de específico na multidão que se manifesta. Ao colocarem massas de pessoas nas ruas, num misto de manifestação por direitos e celebração, as paradas ampliam a visibilidade e o significado das identidades coletivas presentes no movimento, aplicando a elas a concretude da diversidade e oferecendo corpos aos nomes que usamos para definir os sujeitos políticos em nome dos quais clamamos pelos direitos.
A palavra-chave nas paradas é visibilidade, mas não se trata de visibilidade individual, e sim em massa. Dessa maneira, saímos do impasse que exigia a exposição individual e que se abrisse mão do direito à privacidade para garantir direitos coletivos. Hoje essa responsabilidade se tornou mais coletiva: nestes 10 anos passamos de duas mil a três milhões de pessoas e nossas demandas ganharam manchete dos maiores jornais e se tornaram matéria de TV em horário nobre. Essa visibilidade se reverte em favor da luta pelos direitos sexuais. E esse crescimento reflete a expansão e o fortalecimento de um campo social que acredita na diversidade das formas de amar e na legitimidade de todas elas. Mas mesmo quando a mídia não é ainda capaz de nos retratar com respeito, o efeito não se perde. Pelas escolas, empresas, pontos de ônibus, no dia seguinte, se fala da Parada, propiciando a abertura de espaço para que intervenções contra o preconceito aconteçam a partir dos próprios cidadãos e cidadãs que viveram a experiência de estar ali.
Por outro lado, ao estimular que as pessoas dancem ou desfilem nas ruas ao lado de seus amigos, familiares, namorados, companheiros, as paradas criam um espaço de atuação política inclusivo: não é preciso “ser gay” para estar lá, não é preciso ser homossexual de um tipo específico, nem é preciso “gostar de política”, basta estar disposto a romper o limite simbólico que separa os que “não freqüentam lugar de boiola” ou condenam “essa gente” dos que se reúnem para celebrar a diversidade. Nesse sentido, as paradas são um instrumento político extremamente eficaz.
Além disso, a Parada se consolidou como espaço de mobilização social por demandas políticas. Em 2005, boa parte das paradas brasileiras se uniram em torno da luta pela votação e aprovação do projeto de lei de parceria civil registrada, que prevê o reconhecimento legal das uniões afetivas entre pessoas do mesmo sexo; em 2006, afirmamos que homofobia é crime, não porque a lei o diga, mas porque é o que sentimos e queremos que a lei reconheça. Na contramão da fragmentação, a Parada do Orgulho GLBT da São Paulo tem contado com a presença organizada e visível de manifestantes dos movimentos sindical, feminista, estudantil, negro, de luta contra a Aids, por direitos humanos entre outros. Neste ano, assumimos de forma mais profunda a idéia da diversidade, de modo a reconhecer que gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais estão presentes e atuantes nos mais diversos movimentos sociais e que isto ocorre porque, além da homofobia, sofrem o impacto de outras formas de opressão, que são também compartilhadas por outros grupos sociais. Mulheres e homens, heterossexuais ou GLBT, negros, brancos, indígenas, ciganos, judeus, nordestinos, orientais ou integrantes de outras etnias sofrem cotidianamente o impacto do racismo no Brasil assim como em todo o mundo. Homens e mulheres de todas as raças/etnias, orientações sexuais e identidades de gênero estão também sob o impacto das mais diferentes formas em que o machismo e as relações de poder desiguais entre os sexos se expressam. O racismo e o machismo são formas de opressão que negam os direitos, a dignidade e a cidadania plena a seres humanos em todo o mundo e têm também impacto na forma como a homofobia ocorre.
A Parada tem sido também base para conhecer melhor a população GLBT e suas demandas. Hoje sabemos que a população que vai à Parada é predominantemente jovem e bem mais escolarizada que a população local de modo geral, mas que, mesmo assim dois em cada três GLBT que estão ali já foram vítimas de discriminação ou agressão motivadas pela sua sexualidade. Sabemos também que apesar de serem aberta e majoritariamente favoráveis aos diretos de GLBT, mais da metade do público presente à Parada não é capaz de citar espontaneamente leis ou projetos de lei que garantam diretos a GLBT. Apesar de serem muito poucos aqueles que não falaram sobre sua sexualidade para ninguém, quase metade dos GLBT vitimizados pela homofobia não relatam a ninguém a violência sofrida, e, quando relatam, na maior parte das vezes o fazem apenas a um amigo ou amiga. Desnaturalizar a homofobia, informar sobre os diretos de GLBT e garantir espaços respeitosos de apoio e encaminhamento de denúncias de GLBT vitimados/as pela homofobia são tarefas urgentes.
Entre os desafios está também a garantia do direito à nossa manifestação enquanto movimento social. Pelas proporções que a Parada tomou, muitas vezes temos sido tratados como um evento, de modo a descaracterizar nossa origem e nosso caráter político, reduzir nossa capacidade de mobilização política e a contribuir para que o direito à manifestação pública do movimento GLBT seja violado. Encerro minha contribuição à nossa conversa nesta noite com um alerta e um convite: cada vez que deixamos de reconhecer ou desvalorizamos o espaço político conquistado com as Paradas, estamos trabalhando no sentido de destruir o potencial político construído ao longo dos últimos 10 anos e contribuindo para que nosso direito à manifestação pública seja desrespeitado. A visibilidade política da Parada ou de qualquer manifestação pública é proporcional à quantidade de agentes politizados envolvidos na sua construção. Por isso a importância de cada integrante da multidão que a compõe. A Parada é formada por cada um de nós e sua capacidade de transformação social depende do grau de envolvimento que cada um de nós tem em relação a ela. Fica aqui o convite e o desejo: que cada um e cada uma de nós dancemos muito na próxima Parada, pois, como dizia a feminista libertária Emma Goldman, “se eu não puder dançar esta não é minha revolução”, mas que nossos corpos, corações e mentes estejam sintonizados com a idéia de que a construção de um mundo sem racismo, machismo ou homofobia depende do governo, das leis e das políticas públicas, mas também depende de cada um de nós.
Antropóloga e vice-presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo
E-mail: rfacchini@uol.com.br
Apoios



