O Globo: Polônia regride em direitos LGBTQIA+, mas pressão interna começa a surtir efeitos

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País enfrenta uma política abertamente antigay desde a década passada, e a comunidade enfrenta agressões, ofensas e o medo diário de andar nas ruas

Cruzar à noite a bela Praça do Mercado de Cracóvia é garantia de ser abordado por um enxame de divulgadores de clubes de strip-tease. “Gosta de seios fartos? Prefere ruivas ou louras?”, convida um deles, enquanto aponta para um dos muitos bares espalhados por esta zona medieval da capital da Pequena Polônia, a mesma província onde nasceu o Papa João Paulo II. A passos dali, não tem ninguém na frente do Lindo Bar. Aberto para a calçada, o andar térreo deste raro local voltado para o público LGBTQIA+ na cidade também está às moscas, enquanto, no subterrâneo, umas dez pessoas tomam cerveja ao redor do balcão ou nas mesas, conversando e escutando música pop.

— Antes, a gente costumava fumar e bater papo lá em cima. Mas as coisas estão ficando estranhas demais, não vale a pena o risco. Há uns meses, meu namorado e eu quase apanhamos na rua por trocar uma carícia. Fomos xingados e ameaçados por um casal que estava com os filhos pequenos — conta Maciej, estudante de 27 anos que, nessa noite, está acompanhado da amiga Agnieszka, a Annie, de 24.

 

Ela, que é lésbica, diz que não só as ruas se tornaram território hostil:

 

 

— Quando eu saí do armário, ainda adolescente, meus pais reagiram surpreendentemente bem. Mas, nos últimos tempos, começaram a dizer que eu deveria arranjar um homem bom e me casar, que meu estilo de vida não é aprovado por Deus.A mudança na atitude dos pais de Annie reflete a notável piora na aceitação dessa minoria num país que foi um dos pioneiros da Europa Oriental em descriminalizar as relações homossexuais, em 1932.Nesta semana em que se celebra o Dia do Orgulho, Bart S., um famoso ativista LGBTQIA+, foi indiciado por “incitação ao ódio, calúnia e difamação” contra soldados poloneses da fronteira com a Bielorrússia. Seu crime, segundo o Ministério Público? Criticar a atuação dos militares num choque com refugiados que tentavam entrar na Polônia, em 2021, deixando diversos feridos. A notícia foi dada com sensacionalismo e claro teor homofóbico em vários meios de comunicação. Os mesmos que difundiram estes dias fake news sobre supostos planos de criação de um “batalhão LGBTQIA+” no Exército polonês — gerando uma onda de ódio contra as minorias sexuais nas redes sociais.

 

Desde a chegada ao poder do ultraconservador Partido Lei e Justiça (PiS, na sigla em polonês), em 2015, a retórica antigay saiu do armário na TV, nas redes, no Parlamento, nas igrejas, nas conversas nas ruas.

 

 

Em agosto de 2019, o arcebispo de Varsóvia, Marek Jedraszewski, chamou a “ideologia LGBTQIA+” de “peste do arco-íris” numa homilia. Em setembro daquele ano, 300 membros de um grupo de extrema direita, segundo a polícia, estouraram a Parada do Orgulho de Lublin, no Leste do país, ferindo várias pessoas com pedras e rojões. Na mesma época, Janusz Korwin-Mikke, um dos líderes da ultradireitista Coalizão Liberdade e Independência — que já disse que as mulheres são menos inteligentes que os homens — afirmou que quem promove os direitos dos gays “deve ser morto”.

 

 

 

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